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Raro.

Tão sobriamente raro ...

 

... como aqueles que não se entregam nas mãos dessa normalidade destes dias, nesse sereno prazer secreto de testemunhar, conseguir "ver", essa armadura de negação a estes dias. 

Enquanto cismo nesta ideia, inerte a tudo o que me rodeia, excepto ao clarão das palavras proferidas naquele tom pardo e quase sussurrado, como se mais alto fossem capazes de mutilar, vou bebendo delas embriagado e no respeito de um silêncio por mim próprio imposto. Catártico e sombrio como uma lâmina vai desnivelando a minha ilusão de estabilidade. Ponto por ponto. Racha por racha. Fibra por fibra. Até restarem apenas os filamentos escuros do meu orgulho. Esse animal falsamente aplacado. Essa besta agachada e em chacota que simula na perfeição a domesticação dos seus instintos. 

( Fleuma )

Consigo encontrar o mais ínfimo detalhe de uma partícula do Universo naquela primeira chávena de café quente nas auroras geladas quando o sol brilha frágil e submisso. Nos silêncios mais espessos e na falta de palavras, as expressões mais violentas do meu amor mais intenso, a mais crua desfiguração dos meus instintos mais íntimos, a minha maior obsessão por tudo o que cresce dessas manhãs prematuras. O primeiro pedaço de pão escuro toscamente partido pela mão, o intenso crispar do meu sabor no primeiro pedaço de queijo forte e de cheiro ancestral, enquanto vai estalando o fogo que aquece a casa. O bolo em cima da mesa, mesmo agora acabado de sair do forno, a escaldar entre o chocolate negro, as amoras silvestres e a canela mais pura que alguma vez senti! É como uma justificação para conseguir respirar outro dia, entre aquele ligeiro estremecer de antecipação premeditado e o doce silenciar da alma neste amanhecer. 

Mergulho profundamente nos movimentos sinuosos do corpo que gravita junto a mim, perdido nessa beleza surreal, tacteando cego, enquanto vai percorrendo a sombra e a luz, leve e felina, cheirando a desejo - a minha própria bestialidade. Morreria neste preciso instante sem mágoa enquanto escuto a sua respiração suave, ruminando na impossibilidade dos seus olhos celestes, do sorriso lascivo e de promessa, da melodia das palavras de um dialecto que sibila, na preciosidade da companhia como amantes. 

Silencio a minha alma atrás da enorme janela de vidro, descansando os olhos matinais nas árvores da floresta gelada à minha frente. Sei deste privilégio. Sei da virtude de uma solidão partilhada no caminho da floresta; a extravagância de percorrer esta ausência de ruídos que talvez seja um novo estado de quase loucura em mim.

Sou um mestre na arte de habitar nos pormenores. Creio que esta é uma virtude de alguns animais. Mas não a aprendi sozinho.

Não. 

(Fleuma)

Por vezes, no regresso a este local, sinto uma estranha emoção, muito interna, muito presente. Neste ponto onde tento respirar outra atmosfera, respiro saudades de ti. Creio que é de egoísmo que escrevo estas palavras, de ingratidão porque me afasto para demasiado longe com demasiada frequência, mas pouco me interessam essas falhas. Certos vazios nunca são realmente preenchidos mesmo que consideremos ser um direito criar o vácuo. A saudade não deixa de estar presente ainda que breve, mas é terrivelmente intensa como aquele instante de quem entra em casa e tudo está vazio e silencioso, um caminho que abre as portas e anda pelos corredores sem uma presença, sem um som além dos seus próprios passos. Este torpor que sujeita os sentidos fascina-me mas embrutece o pensamento porque algo está ausente, perdido entre uma certa nostalgia do que não irá regressar. Sabes que eu acho a saudade e a nostalgia em facas de fios afiados que rasgam e mutilam sem piedade. Sabes que sim. E assim deve ser para sentir o verdadeiro sabor do valor de quem, em momentos únicos, partilhou as minhas palavras e me chamou amigo. Algo primário e visceral como se nesses precisos momentos, a viagem não fosse solitária, pelo menos neste local. 

Para mim é o acenar a uma vontade de não esquecer o que não é fácil de encontrar.

O assentir à preciosidade de uma porta aberta.

(Fleuma)

 "JIM HARRISON"

 

 

 

Esta noite um pacto entre caminhos.

Sangue por sangue. Olhos nos olhos. Pensamento por pensamento. Um pacto de companhia entre caminhantes. 

Ou talvez um pactuar de almas cegas. Gosto disso. Do sabor de uma alma cega e silenciosa, que cintila quando lhe mostro o ranger dos ramos das árvores ao peso da neve do Norte.  Gosto dessa ideia, de uma outra alma cega, que mesmo assim, consegue apontar-me outros silêncios consentidos, outras auroras em noites de insónia.

E neste pacto, insisto em escrever-te com sangue porque não consigo abandonar esta paixão pelas noites em que não durmo solto e com a leveza do cansaço extremo. Falar desse abandono em luxuria pontuado pelas luzes nos céus escuros que tantas e tantas vezes revigoram as minhas certezas. Insisto nisto, é claro. Eu sei. Uma forma de loucura que se aproxima de uma febre espástica; uma paixão tão dolorosa como arrebatadora. E mesmo assim não é possível para mim resistir-lhe. 

Sabes?

O velho nunca mais voltou a percorrer o estreito caminho de pedra do jardim até ao canto mais profundo, para colocar uma flor junto da imagem de uma senhora. Há muitos meses - mas eu insisto em sentar-me em frente à casa fechada. E continuo a inclinar a cadeira onde me sento contra a parede, e a poisar os pés em cima do parapeito de madeira. E permaneço estático com a caneca de café nas mãos como se acreditasse que o velho voltará a colocar a flor no pequeno altar. Talvez um outro pacto que recuso rasgar, sabes? Porque me fustiga a tristeza aquela casa silenciosa e fechada aos passos do velho. Porque me parece que as pequenas árvores do pequeno jardim já não dançam com o vento, como sempre me pareceu quando o velho caminhava ligeiro entre elas. Por isso não quebro este pacto que o senhor de cabelos estreitos nunca quis assinar, mas que eu, demónio de encruzilhadas, decidi pactuar. 

Acredito em pactos desaparecidos da memória. Antiquíssimos como a necessidade de te descrever o que persigo - como se isso fosse importante para ti. Como um desejo intenso de que o teu olhar seja o meu e o velho desaparecido permaneça, como um selo de sangue entre nós. 

(Fleuma)

 

 

Atmosferas são como pessoas. Reconheço uma intensa paixão por pessoas atmosféricas, que oscilam por ventos agrestes caminhando por labirintos gelados, e por fim, por fim, deliciosamente se tornam suavemente cálidas. Estas criaturas são pactos de um sangue atmosférico, cruelmente dotadas daquele vigor sanguíneo cuidadosamente calibrado para forçar a paixão mais bruta e crua. Nunca nos amam por pedaços. Nunca pretendem a nossa mudança. Conquistam a nossa totalidade. Absorvem a nossa sombra de braços abertos. Bebem de tempestades. Das nossas agitações e espasmos.

Amo-as.

Intensamente.

Em raiva. 

Essas atmosferas são como um arrebatamento em delírio que respira em nós. Algumas, serão as que desejo ver nos últimos instantes de uma existência sombria, as mais belas e brilhantes, as mais violentas e lacerantes. 

E nesses últimos instantes, antes desse Nada absoluto, em egoísmo, vou desejar guardar toda a beleza dessa brutalidade, toda a salvação desses braços que se abriram para mim.

(Fleuma)

"Não há nas farmácias nada específico contra a existência; só pequenos remédios para os fanfarrões. Mas onde está o antídoto do desespero claro, infinitamente articulado, orgulhoso e seguro? Todos os seres são desgraçados, mas quantos o sabem? A consciência da infelicidade é uma doença grave demais para figurar em uma aritmética das agonias ou nos registos do Incurável."

- Breviário de Decomposição, Emil Cioran

 

Existe uma fina linha quando o desespero insiste em unir-se à compaixão. Um vergar do pensamento mais cínico e descrente na alma humana,  insuportavelmente real, quando confronta os dias da nossa parcimónia indiferente numa lição cirurgicamente administrada no ego, a humilhação final. Se o desespero mais puro e surdo é um dos alimentos da verdadeira condição humana, a compaixão mais profunda, sentida em todas as fibras, é o antídoto contra uma morte de indiferença naquele veneno escuro e espesso que tão bem sabemos ruminar. Se o desespero não é estranho em nós, partilha infatigavelmente os nossos dias, é obscenamente dócil maquinar nele a nossa escuridão, e mesmo sabendo que nem todos sabem realmente o que ele é no seu estado mais puro e surdo, os seus caminhos não são desconhecidos para ninguém. A compaixão mais genuína e despida de atrocidades falsamente altruístas é um outro Animal, quase etéreo. Testemunhada na sua expressão mais crua é um fenómeno tão esparso que a maioria das criaturas que caminham por este decrépito planeta corre toda uma existência sem um vislumbre dele. É uma outra Besta quase mítica, sonhada e embalada como essência de Deuses e paraísos dourados. Corporizada nos santos ou filhos de Deus crucificados. Quem no entanto, talvez por uma bizarra conjugação universal, tem o privilégio de presenciar a compaixão naquele preciso e único momento, naquele curvar Universal que muito provavelmente nunca mais voltará a vislumbrar, nunca será capaz de lhe atribuir um sentido, uma definição, uma emoção ou racionalidade; é um corpo estranho que nos perfura sem que seja possível a defesa. Um golpe surdo e implacável que faz vacilar perigosamente todos os alicerces da razão. É uma impossibilidade a desaparecer, aquela em que os olhos testemunham a mão que se estende para ajudar a erguer e amparar sem disso esperar retribuição. Deixa em nós um vazio por algo que foi retirado e não devolvido.

O desespero é uma cicatriz que nunca sara. Podemos adormecer com o monstro iludidos de que um dia deixará de respirar dentro nós.

A compaixão, esse vergar da alma humana, essa submissão de todos os nossos princípios mais queridos em nome de outro sem hesitação é como um pestanejar - se fecharmos os olhos naquele instante nunca chegaremos a duvidar do realismo cínico e frio que o desespero alimenta carinhosamente.

A grande ironia da compaixão não é a piedade mentirosa e sedenta de atenção. A maior das ironias é possuir uma força impossível que apenas existe entre poucos.

E os que restam podem apenas sonhar entre o cinismo e o desespero.

(Fleuma)

A Dor e outros Prazeres

999

Atravessar a passagem de alguém sempre me fascinou. O efeito causado por esse cruzamento é ainda mais fascinante; em muito raras vezes, algo fica como marca, e recuso-me a deixar fugir esses traços no tempo.  As outras, as que pretendo esquecer, são muitas. Demasiadas. São marcas profundas, pesarosas, antigas, a troçar precisamente disso: esquecimento. 

Mas são os cruzamentos que recuso deixar escapar que assombram os meus dias. São essas raras encruzilhadas onde não permito o esquecimento, e vou, metodicamente, tentando regressar uma e outra vez. Essa raridade preciosa que existe em Algo ou Alguém não é uma virtude comum a todas as criaturas ou coisas. Não. É um ponto de referência que consegue desviar a minha vontade naqueles sinais vestidos de portento que demonstram precisamente o que falta em mim, esse Algo ou Alguém onde poisar, esses traços únicos de lucidez distante, a noção de ter encontrado algo que perdi. 

Faltam-me demasiado tempo esses alambiques escondidos, expressões de Algo estranho em mim. Faltam-me muitas vezes as palavras para o descrever, e então, em outras passagens e encruzilhadas, aprendo e conheço.

Reconheço.

(Fleuma)

 

 

 

Hans Lindström

Ad Nauseam

 

... para ti.

Hoje choveu durante toda a noite. Ríspido e arrogantemente, choveu neve. Hoje, até o vento foi mais violento e inquieto na voz, insistindo na presença sibilante das minhas insónias.

E hoje alguém me falou de saudades. Alguém me chamou para dizer que tinha saudades de mim. Assim, sem me avisar - sentiu a minha falta. Esta coisa estranha emaranhada na minha insónia, este simples artefacto transformado em algo que consegue preencher outros vazios. Algo quase desconhecido para mim que sei  despertar essa saudade apenas a alguns. E no entanto, longe destes, bem mais distante de mim, traçado por dias passados, alguém reteve algo de mim, uma lembrança que deixou poisar uma saudade e uma falta.

Estranho. 

Porque acabou por acordar uma saborosa nostalgia passada. Estranho. Esse sereno apertar de memórias que se consuma numa vontade de regresso e voltar a encontrar outro. Estranho, porque nem sempre os limites pertencem aos mais próximos de nós, os que nos acompanham todos os dias. 

Senti a fraqueza que parece consumir a minha respiração quando algo semelhante a um rasgo de felicidade cintila.

Mesmo com a chuva de neve e o vento agreste consegui deixar entrar a saudade de outro.

Adormeci muito antes de amanhecer. O sono foi de horas. Solto. Livre.

(Fleuma)




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