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O que anseio é esse corromper desta harmonia. Esse encantar premeditado que consegue encher estes dias longos, vagarosamente. Ensina-me a respirar de novo. Regressando por pensamentos onde habitam as memórias que, e eu sei, estão  resguardadas.

E sei desta minha arrogância escurecida pelo orgulho quando regresso aos teus passos, enquanto vou vampirizando as cores e as transformo nesta corrupção de harmonias: devagarinho pelos degraus escorregadios como as sombras. Vou criando as escarpas do meu caminho com as esperanças e brilhos subtraídos. 

Esquivo. Sorrateiramente.

Orgulhosamente sempre gostei de labirintos que conduzem a destinos que não são meus. Gosto de ali pernoitar enquanto vou tecendo sintomas escondido. Sem a mácula da vergonha consigo brindar a mais uma chave, que abre mais uma fechadura de ferro forjado de pensamentos que não são para mim. Não são meus. Mas esse é o verdadeiro gene do viajante infatigável - vai  saciando a sede em todas as fontes.

 

 

 

 

Talvez a paciência até seja uma virtude. Se calhar algo bem maior do que isso. 

Não sei.

Para mim não é. Não se trata de um sentimento benévolo para nada. Não acredito na paciência como privilégio para sustentar a ilusão de que me tornarei melhor - que assim o mundo se tornará mais sereno e pacifico. 

Deus! Que erro colossal!

Ser paciente é aceitar o açoite do teste e a persistência de oferecer a face para mais uma bofetada de quem saberá usar este sentimento para nos enfraquecer. Hoje uma bofetada - amanhã um soco - depois um pontapé. E o coração deve continuar paciente como se uma virtude destas fosse o nosso respirar.

Mas mesmo nos testes mais intensos, sistémicos, corrosivos da minha capacidade de tolerância, existe aquela patologia, incapacidade para impedir que aconteçam os pequenos momentos de cedência involuntária. Cedo alguns preciosos momentos ao sabor de outros passos - ainda assim, sabendo que se esgotarão naquele torvelinho de inutilidade e arrependimento por tal cedência - eu insisto porque não consigo resistir a uma certa mutilação que consinto.

E no entanto, em raros espasmos, esta patologia de preciosos momentos de paciência prolonga-se; consigo estender-me e deixar que se alonguem numa sonolência de sangue e pensamentos. Acabo por encontrar a sedenta justificação para não resistir a estes minutos de auto mutilação emocional, como que necessários para uma qualquer cosmogonia que ainda desconheço. Nascido da minha incapacidade para compreender tantos e tão vastos argumentos para tamanhos oceanos onde habitam os pacientes intratáveis.

Talvez porque não sei nadar nestes mares.

 

(999)

 

Observo, distanciado, uns poucos onde procuro almejar pequenas réstias da minha esperança. Gosto de descansar, nestes, os meus olhos, desejando muito mais vezes, conseguir realmente sentir-me próximo deles. Como amigos. Companheiros. Companheiras e vontade de ali permanecer.

Mas, creio que frequentemente, persisto neste cismar que rapidamente me atira para a divagação - nem sempre a mais generosa de racionalidade. Demasiadas vezes nostálgica, que atiça a minha fome de repetição. Nunca mais parar.

Por vezes olho e fico em frente a eles. Expressão com expressão. Partilhando notas e vozes. Ébrio com o que escuto. E com aquele beijo tão sedento, para quem se julga moribundo e afinal, apenas renasce.

Mas os sentidos são, muitas vezes, afagados por palavras directas como pequenas chamas no escuro. Temeroso, observo, temendo a intrusão maligna que acaba, inevitavelmente, por corromper o momento raro e solene.

Mas é isso mesmo.

É como perseguir a eterna ideia do ouro e das estrelas, transformando-a numa metáfora pessoal onde insisto em aprisionar todas as grandes memórias, todos os momentos mais gratos da minha experiência. Não é sequer uma referência ao metal precioso, antes um assentar de joelho na terra e um baixar da cabeça, a algo que para mim é verdadeiramente valioso e sem preço. Algo que permanecerá na minha consciência até ao dia em que morrerei e onde sei que em cada recordar desses momentos, sentirei genuinamente algo semelhante a uma alegria feliz. Pura e intensa.

Não consigo encontrar uma  explicação para esta tempestade nestes momentos. Vai contra a minha natureza. Sei disso. Mas é como um raro néctar de sobrevivência animal e primário; traz consigo um estranho calor que aquece o coração e a alma. É por isto que persigo esta ideia e onde certas memórias, as mais maravilhosas memórias, são o mais precioso ouro e as mais brilhantes estrelas. E como sou demasiado egoísta na minha vontade, nunca vou deixar de as perseguir, guardando-as em espaços apenas meus. Só meus.

Não desistirei de acreditar que será esta perseguição do ouro e das estrelas que se sentará ao meu lado no meu último dia na Terra. Que serão as melhores memórias a acompanhar-me no meu último respirar. Antes de fechar os olhos.

 

 

Escrevi a alguém que se levasse algum pedaço meu, eu gostaria que fosse algo menos escuro; talvez algo mais próximo de uma certa pacificação. Como se me fosse permitida a quimera da escolha. Como se fosse possível oferecer outra alternativa ao estranho e por vezes bizarro.

Mentia. Claro. Creio que apenas me será permitida a veleidade de desejar que essa mesma pessoa retenha em si a  capacidade de conseguir absorver o Caos que tenho - que abunda em  todos nós. Mas que uns conseguem guardar em compartimentos estanques, adiando a inevitável chicotada que virá. Sem dúvida surgirá. 

E outros apenas conseguem conter esse Caos primordial gerindo paixões - apenas mais uma maneira de sobrevivência talhada no hábito e na aprendizagem. Por isso também lhe escrevi sobre a sua "inflexão para existir". Porque a leio e talvez isso não lhe seja importante, mas quando o faço poiso o corpo nas suas escarpas e labirintos. E consigo entender descrições, sensações e principalmente acompanhar outra filosofia. Não apenas a constante batalha contra correntes e tempestades.

Também escrevi a outra pessoa sobre a opressão da sua vitalidade que brilha nas suas palavras - tão intensa e quase embaraçada, talvez por estar muitas vezes nas suas palavras, pequenos pedaços de escuridão mesclados com a consciência da necessidade de luzes acessas, a minha própria reflexão. Talvez um reclinar de espírito nestes dias em que as promessas não são mais do que memórias.

E vou esticando os braços e as pernas, sacudindo o cansaço, enquanto, pacientemente sigo a matutar na estranha fórmula de um Amor que se tornou líquido.  Caminho silencioso. Com as mãos escondidas. Porque sei ser capaz de entrar e não resistir a um sair de mãos cheias de certezas que não são minhas e sensações que podem espumar a minha tosca sensibilidade.

 

 

Não é fácil para mim esquecer-me do virtuosismo que alimenta a chama de certas criaturas. Pela necessidade urgente da sua presença. Pela sua capacidade de incendiar a minha consciência. Incendiando os meus pensamentos e quando pressinto a conclusão e solução do seu virtuosismo, esmaga-me os sentidos, deixando-me incapaz. Estupidamente frágil.

Ironia das ironias, a necessidade de outro para caminhar.  Um estranho artefacto, este, que comprime as memórias e me vai deleitando entre as horas de insónia. Estranha poção, esta, que alimenta o mais estranho cogitar, quando a hora deveria ser de descanso, e ainda assim, pacifica os sentidos.

É estranha a sua virtude. Capaz de se impor em mim pela força do seu rir, envolvendo-me em encantos que antes pensava conhecer, quando imaginava imunidade a um abraço, a um sussurrar que se tornou único ao meu escutar.

É neste saciar animalesco de sentidos que residem as suas virtudes. Na minha urgência que fique em mim. Que me aperte contra si e envolva os meus pensamentos.

E se estiver no seu virtuosismo a salvação?

Posso até sonhar com a redenção?

 

 

 

 

O sabor da melancolia é maravilhoso. É como saborear a própria mente. 

A nossa melancolia é uma companheira infatigável; em todos os momentos em que surge, estranhamente confundida com um qualquer desterro da mente inerte pela ideia de tristeza, se conseguir ultrapassar essa barreira, sei das suas imensas propriedades curativas. Sei como se pode converter em sabores, naqueles dias em que a mera ideia de olhar para algo ou alguém,  fará surgir um outro labirinto - uma outra forma  de caminhar.

Mas é na margem  de outras melancolias que gosto de pernoitar; nas vezes em que os meus passos silenciosos, caminham por outras sombras. Creio que estas são melancolias que se desfrutam em solidão, quase egoísta, porque saltamos em  escarpas, muralhas escorregadias e precipitadas, onde falhar nos gestos se perturbam os pensamentos e se acendem as luzes, e as sombras se voltam a esconder.

 Ah! 

Mas é aqui que gosto de me baloiçar! Entre a luz do dia que sempre parece atrair o sorriso e as palavras do positivismo mais urgente, e as sombras que dançam naquela melancolia nocturna, quando estamos realmente frementes pelo seu usurpar. É neste estranho e antigo caldo que se cozinham os sabores das minhas alquimias preferidas.

Onde prefiro ser um fantasma entre melancolias. Sentir-lhes o sabor. Conhecedor do que é apenas melancolia de todos os dias, enquanto vou apurando o gosto intensamente amargo de outras claridades a meia-luz.

Ou sentindo o néctar doce daquela rara melancolia, desenhada a esquissos precisos, como silhuetas silenciosas. 

Aqui bem mais raras e por isso muito mais valiosas para uma criatura como eu.

 

 

Dedicado ...

 

 

Deixa que te mostre a matéria da minha saudade. A necessidade de escorrer esta nostalgia sobre os ombros da tua tranquilidade serena e assim roubar  o teu caminhar de passo certo.

Deixa que seja, por estas breves palavras, nos teus preciosos segundos, antes do desvio dos sentidos, o teu olhar em expansão. Quero que aceites a minha mão e não temas o seu tamanho ou a sua força. Por agora não existem rumores de tempestade, nem sequer pingas de apreensão. Apenas saudade.

Deixa que sejam os meus olhos a ver as montanhas brancas de neve e gelo, onde os picos terminam nos céus da gloriosa Asgard, até onde se sentam os Deuses que sei serem desconhecidos para ti. Cerro o meu brilho juntamente com o teu, perante o  branco cristalino destes gigantes.

E respiramos espanto!

Deixa que sejam os meus ouvidos o teu escutar. Porque sei como o Lobo uiva nestas noites frias e escuras, enquanto vagueia pela floresta do Norte. Porque quero que saibas como pode ser serena a voz do Corvo negro no seu esvoaçar entre montanhas e névoa matinal.

Quero ser a tua pele enquanto sentes o vento frio como lâminas a rasgar-te o rosto gelado; o êxtase do teu primeiro banho no lago gelado, quando chegar a hora do primeiro baixar de semblante diante do regresso do todo - poderoso Inverno. Preciso que sintas o clamor silencioso da geada e os teus passos lentos enterrando-se na neve.

Quero falar-te sobre solstício; sobre as minhas guerras e as minhas derrotas na companhia de outros guerreiros, fieis ferreiros da minha armadura. Quero, nestes palavras, ser a tua voz enquanto vamos, a sábios tragos, saboreando as revelações que despontam do calor à nossa volta.

Se caminhares ao meu lado, serei eu quem te segura pela mão e enfeitiçarei os teus sentidos na beleza profana e inigualável destes seis meses de escuridão, onde o teu silêncio se tornará ébrio, intoxicado por este Sol da Meia-noite. Onde a tua mão tremerá e os teus olhos crescerão,  rendidos à Aurora boreal. 

Aqui, enquanto dançam as partículas do vento solar e as temperaturas geladas deste planeta, poderei segredar, em pecado, sobre Deuses e outras Deusas.

Desejo que saibas que não nascendo entre eles aqueles e aquelas são o Meu Povo. São a minha salvação e a minha força que se torna imensa. Necessito desesperadamente deles como de pulmões para respirar e coração para sobreviver. Reclamo os teus sentidos nesta Runa escrita para te demonstrar claramente que me sinto estranho aqui. Que não pertenço a este lugar. Que sei com todas as fibras da minha saudade e nostalgia onde quero terminar a minha miserável existência.

Lá.

Com eles e elas. Com a  escuridão e a luz da Meia-noite. Com o odor do vento. Com o sabor dos líquidos a queimar e do pão negro a cozer, entre o meu silêncio extasiado e as conversas que transpiram calor divino; ouvir a música que toco e canto tantas vezes negra e sombria, mas aceite de braços abertos porque é um pontuar da minha alma.

Sabes, ofereço-te um trago da minha saudade pela tua companhia.

Deixo-te um suspiro nostálgico para que me atires os teus sentidos, mesmo que por breves instantes.

Talvez assim o grande lobo Fenrir se aquiete na sua fome e espreguiçando-se, esqueça por breves instantes o Ragnarök.

 




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