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As palavras escritas são como gestos e acções. Funcionam muitas vezes como caminhos dirigidos a mim onde sei poder encontrar abrigos. Sei do seu poder ancestral e quase magnânimo; sei da sua capacidade de rasgar, mesmo quando se vestem de bondade e generosidade.

 

Por vezes leio as palavras e consigo sentir-lhes sabores e desilusões. Como se não houvessem distâncias imponderáveis ou sequer necessidade de expressar outra emoção que não seja o silêncio de quem lê. E se fascina.

 

Ainda leio palavras escritas para me dilacerar, atiradas como pedras com a precisão de quem não tem arte ou engenho para o fazer. São as mais fáceis de evitar; um mero desvio de olhar e retornam ao desconhecido. São marteladas por copistas sem doutrina ou por artificies de reproduzir nada. Incapazes de entender que o insulto se tornou cabal na sua demonstração da minha eterna presença nos seus pensamentos.

 

Gosto, no entanto, de me fascinar nas palavras escritas naquele doce banho Maria da ironia de aparente desapego. São como vinho forte para os imoderados que sabem do seu intenso poder subversivo; são como adagas dos guerreiros mais astutos, aqueles que sabem que aquecendo a lâmina na chama esta rasgará muito melhor.

 

E depois? Depois são as palavras escritas com estranhas alquimias. Imaginadas por quem cintila brilhos que não me pertencem. Misturadas na mestria de quem cozinha pequenos pedaços de escuridão aqui ou ali. 

 

Ou então são as palavras escritas com sombras quando os dias deveriam ser de sol brilhante. Como esquissos genuínos da alma humana. Como gestos sensuais na escuridão. Como prazeres sôfregos de estranha química.

 

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A biblioteca é um templo. Um local de culto quase circular onde os livros moram juntos, como irmãos de mãos dadas. É possível respirar o seu odor de papel impresso e sorver o que contam; sem pressa e deixando que o tempo se abrigue nas horas.

 

Gosto de ali ficar durante muito tempo. Naquele antro de tanta soberba e maquinações sinistras. Gosto.

 

Um lugar raro tornado ainda mais precioso pelo seu criador cujos olhos não brilham há muitos anos. Tornaram-se brancos rejeitando a luz. Talvez tenha sido esse o preço a pagar para assim conseguir absorver palavras, dialogar com odores e dançar sem a pompa dos idiotas diante dos sons.

 

Estranho, que se não consiga ver e ainda assim se ame um livro imenso de palavras e símbolos. Que se persista na tarefa de juntar catecismos imortais: Nietzsche de mãos dadas com Carl Jung, Fiódor Dostoiévski ao lado de Freud e eu sempre a beber deles! Sempre embriagado pela crueldade de Aleksandr Solzhenitsyn no seu Arquipélago Gulag e eternamente grato a Orwell pela sua Penúria em Paris e Londres.

 

Gosta que eu leia em voz alta. Trechos e traços de tantos e tantos livros onde vai passando os dedos de maneira quase sexual. Por vezes lê pelo tacto. Mas prefere ouvir pela voz de outros. 

 

Quando partilho este local consigo sento-me no centro. Porque sei que acima de mim está uma clarabóia por onde muitas vezes jorram os dias nas suas cores. Um óculo enorme como o olho de um deus. Nada parece perturbar este buraco; nem quando chove furiosamente em geada; nem mesmo quando é da majestade imponente das luzes do outono que se trata.

 

Apenas ilumina aquele mundo.

 

E talvez este senhor saiba disto. Como sabe do sabor das nozes tostadas e do queijo caseiro da D. Alcinda. Talvez consiga sentir o cheiro que emana do corpo debaixo daquela clarabóia, por cima das prateleiras com filas de livros antigos e mais jovens. Talvez.

 

Porque são momentos em que os seus olhos se fecham tapando o branco creme. E o sorriso mais iluminado rasga o rosto. Enquanto escuta a palavra lida torna-se soberbo e digno. Impassivelmente Deus.

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(999)

 

Por vezes, são alguns momentos que me despertam para uma certa realidade. Raros. Tão esparsos que se transformam em apertos dolorosos. Surgem do nada e transportam consigo a transcendentalidade das revelações.

 

Um pequeno, quase invisível, vislumbre da importância de uma criatura. Uma só criatura universo. Compacta. Uma órbita de anéis onde tantas vezes a tempestade se aplaca num murmúrio. Algo com a capacidade de absorver a força bruta do Caos e permanecer intacta. Impossibilidades.

 

Creio piamente na ideia cada vez mais profunda em mim; estranhamente mora esta noção de que não estou a queimar os anos com algo sem valor. Não consigo afastar este horizonte. Por mais que tente perseguir portentos ou sombras, tudo se encerra numa só criatura universo. 

 

Como se explicam certos ventos de outras margens a um descrente? Como se torna possível esta perda irreconhecível da necessidade de autofagia, porque afinal existe muito mais potência noutro toque e calor de um beijo?

 

Como se justifica à consciência a vontade, necessidade primária, de sentir saudades para manter viva a imagem de uma só criatura. Um universo onde se torna tão, mas tão fácil perder.

 

 

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