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Aquele preciso momento de iluminação cravado nos olhos como uma visão dos Deuses que incendeia os sonhos, que engana a  razão e transforma as longas semanas de escuridão numa porta para um paraíso. Deixo que a magia exista nos breves instantes em que respiro sonhos e uma estranha loucura entre com passos mansos dentro do meu espanto. Volto a acreditar em mundos secretos inexplorados pelos meus sentidos ciumentos e esfomeados. Inspiro um sonhar nocturno que misturo com outros sonhos porque não existem noutros locais, são reais naqueles momentos mesmo não sendo matéria nem partículas, são verdadeiros abrigos naqueles instantes, porque são imagens, memórias, esperanças conquistadas mas também perdidas irremediavelmente.

Fico silencioso. Absorto com uma dança de estrelas infinitas. Incapaz de mover um músculo mesmo debaixo de um frio tirano. Quieto, de olhos fixos no céu, uma paixão a correr no meu sangue, uma imensa certeza de pertencer a algo. Todo o amanhã poderia começar naquelas luzes e encantos. Estes são instantes em que o Céu nunca me pareceu mais Céu; o Mundo nunca me pareceu mais Mundo. São os minutos em que recuso o instinto de abrir os braços e deixar que me absorvam luzes, as luzes e o espanto infantil, porque sei que dançaria como um bobo incapaz numa dança ridícula e desajeitada. 

E é isto a felicidade? Frágeis instantes, tão imensos que me provocam medo e recuso a ceder a emoções tintas de sombras e portentos de luz. Quando o discurso se apaga e o coração bate intenso contra o peito sei que as recordações nunca se extinguirão, que talvez ceda a um abraço no escuro, mesmo sabendo que esse escuro não se afastará, que os pesadelos ainda caminham, que outros braços não me farão sentir salvo mas mais acompanhado. Se calhar escutar um suave sussurrar " estou contigo e nunca te deixarei" e por instantes acreditar. Mesmo sabendo que todos mentimos acreditar que se calhar é verdade.

 

 

 

 

 

 

O que mais custa é deixar que esse sentimento fuja do nosso alcance. É doloroso o esforço de quem tenta agarrar algo ou alguém que se recusa a ficar ao nosso lado. Tudo que fica é um sabor criminoso pelo simples facto de sentir algo. De querer algo. É como ficar arrependido por desejar e ser desejado. Aqui o caos tem o sabor do pensamento dos que desistem por achar que estão errados e a tentar nadar por águas turvas.

Mas talvez algures alguém ainda pense em mim. Se calhar alguém pensa em mim como em anjos e não demónios, enquanto vai usando as cores de uma estranha nebulosa para cobrir o meu corpo. Como uma visão esculpida apenas na mente - um respirar apenas pelos lábios perante um toque. Um pensamento de salvação para mim. Um chamamento silencioso que eu respondo sem lá estar.

Para mim tão cristalino e puro. Tão imensamente raro como aquela gargalhada que carrega consigo o supremo poder da salvação. Tão maravilhosamente delicioso como o conhecimento de que outro desconhece a sua capacidade de cauterizar as minhas feridas. Como pressentir o toque suave da química que afasta a tristeza. Como uma necessidade minha e violenta de oferecer tudo o que está curvado nas sombras.

Sim. Isso mesmo. Porque por vezes tudo é belo. Tudo é violento.

 

 

 

Se assim permitires eu serei o teu desejo de Entropia - o imprevisto das tuas palavras - a medida do teu Caos. O teu último reflexo de um bailado num palco solitário. Deixa que seja eu a deixar esmorecer as luzes desse palco, com a tua vénia final.

Por vezes sou essa sombra reclinada sobre as tuas páginas em branco, aguardando ofertas e chaves e caminhos.

Outras noites sou o abrigo da tua escrita que assobia Invernos profanos, tempestade tranquila que fustiga a rocha. Vejo-te nua nas frases e consigo, por estranhas artes, ouvir o teu coração a bater devagar. Baixinho. Tímido.

Um e outro vou deixando os teus acentos esvoaçar nestes céus. Guardo apenas ciclos fugazes de brilho, faíscas que queimam o horizonte e se afundam lá muito acima entre as névoas.

Mas guardo nas minhas palavras os segredos de quem te viu no limiar de espinhos; quem te sentiu e ouviu nas sombras. Reservo-te para os meus estudos feitos de Invernos em Verões há muito esquecidos. 

Sim.

Porque me atrevo a balançar sonhos pelo teu punho de escrita. Enquanto aqueço os pensamentos sem as fogueiras do Caos escuto o teu murmurar na varanda - uma serena melodia de notas que vais escrevendo como encantos perdidos para tantos - mas que eu reconheço como tuas singularidades.

 

 

O que anseio é esse corromper desta harmonia. Esse encantar premeditado que consegue encher estes dias longos, vagarosamente. Ensina-me a respirar de novo. Regressando por pensamentos onde habitam as memórias que, e eu sei, estão  resguardadas.

E sei desta minha arrogância escurecida pelo orgulho quando regresso aos teus passos, enquanto vou vampirizando as cores e as transformo nesta corrupção de harmonias: devagarinho pelos degraus escorregadios como as sombras. Vou criando as escarpas do meu caminho com as esperanças e brilhos subtraídos. 

Esquivo. Sorrateiramente.

Orgulhosamente sempre gostei de labirintos que conduzem a destinos que não são meus. Gosto de ali pernoitar enquanto vou tecendo sintomas escondido. Sem a mácula da vergonha consigo brindar a mais uma chave, que abre mais uma fechadura de ferro forjado de pensamentos que não são para mim. Não são meus. Mas esse é o verdadeiro gene do viajante infatigável - vai  saciando a sede em todas as fontes.

 

 

 

 

Talvez a paciência até seja uma virtude. Se calhar algo bem maior do que isso. 

Não sei.

Para mim não é. Não se trata de um sentimento benévolo para nada. Não acredito na paciência como privilégio para sustentar a ilusão de que me tornarei melhor - que assim o mundo se tornará mais sereno e pacifico. 

Deus! Que erro colossal!

Ser paciente é aceitar o açoite do teste e a persistência de oferecer a face para mais uma bofetada de quem saberá usar este sentimento para nos enfraquecer. Hoje uma bofetada - amanhã um soco - depois um pontapé. E o coração deve continuar paciente como se uma virtude destas fosse o nosso respirar.

Mas mesmo nos testes mais intensos, sistémicos, corrosivos da minha capacidade de tolerância, existe aquela patologia, incapacidade para impedir que aconteçam os pequenos momentos de cedência involuntária. Cedo alguns preciosos momentos ao sabor de outros passos - ainda assim, sabendo que se esgotarão naquele torvelinho de inutilidade e arrependimento por tal cedência - eu insisto porque não consigo resistir a uma certa mutilação que consinto.

E no entanto, em raros espasmos, esta patologia de preciosos momentos de paciência prolonga-se; consigo estender-me e deixar que se alonguem numa sonolência de sangue e pensamentos. Acabo por encontrar a sedenta justificação para não resistir a estes minutos de auto mutilação emocional, como que necessários para uma qualquer cosmogonia que ainda desconheço. Nascido da minha incapacidade para compreender tantos e tão vastos argumentos para tamanhos oceanos onde habitam os pacientes intratáveis.

Talvez porque não sei nadar nestes mares.

 

(999)

 

Observo, distanciado, uns poucos onde procuro almejar pequenas réstias da minha esperança. Gosto de descansar, nestes, os meus olhos, desejando muito mais vezes, conseguir realmente sentir-me próximo deles. Como amigos. Companheiros. Companheiras e vontade de ali permanecer.

Mas, creio que frequentemente, persisto neste cismar que rapidamente me atira para a divagação - nem sempre a mais generosa de racionalidade. Demasiadas vezes nostálgica, que atiça a minha fome de repetição. Nunca mais parar.

Por vezes olho e fico em frente a eles. Expressão com expressão. Partilhando notas e vozes. Ébrio com o que escuto. E com aquele beijo tão sedento, para quem se julga moribundo e afinal, apenas renasce.

Mas os sentidos são, muitas vezes, afagados por palavras directas como pequenas chamas no escuro. Temeroso, observo, temendo a intrusão maligna que acaba, inevitavelmente, por corromper o momento raro e solene.

Mas é isso mesmo.

É como perseguir a eterna ideia do ouro e das estrelas, transformando-a numa metáfora pessoal onde insisto em aprisionar todas as grandes memórias, todos os momentos mais gratos da minha experiência. Não é sequer uma referência ao metal precioso, antes um assentar de joelho na terra e um baixar da cabeça, a algo que para mim é verdadeiramente valioso e sem preço. Algo que permanecerá na minha consciência até ao dia em que morrerei e onde sei que em cada recordar desses momentos, sentirei genuinamente algo semelhante a uma alegria feliz. Pura e intensa.

Não consigo encontrar uma  explicação para esta tempestade nestes momentos. Vai contra a minha natureza. Sei disso. Mas é como um raro néctar de sobrevivência animal e primário; traz consigo um estranho calor que aquece o coração e a alma. É por isto que persigo esta ideia e onde certas memórias, as mais maravilhosas memórias, são o mais precioso ouro e as mais brilhantes estrelas. E como sou demasiado egoísta na minha vontade, nunca vou deixar de as perseguir, guardando-as em espaços apenas meus. Só meus.

Não desistirei de acreditar que será esta perseguição do ouro e das estrelas que se sentará ao meu lado no meu último dia na Terra. Que serão as melhores memórias a acompanhar-me no meu último respirar. Antes de fechar os olhos.

 

 

Escrevi a alguém que se levasse algum pedaço meu, eu gostaria que fosse algo menos escuro; talvez algo mais próximo de uma certa pacificação. Como se me fosse permitida a quimera da escolha. Como se fosse possível oferecer outra alternativa ao estranho e por vezes bizarro.

Mentia. Claro. Creio que apenas me será permitida a veleidade de desejar que essa mesma pessoa retenha em si a  capacidade de conseguir absorver o Caos que tenho - que abunda em  todos nós. Mas que uns conseguem guardar em compartimentos estanques, adiando a inevitável chicotada que virá. Sem dúvida surgirá. 

E outros apenas conseguem conter esse Caos primordial gerindo paixões - apenas mais uma maneira de sobrevivência talhada no hábito e na aprendizagem. Por isso também lhe escrevi sobre a sua "inflexão para existir". Porque a leio e talvez isso não lhe seja importante, mas quando o faço poiso o corpo nas suas escarpas e labirintos. E consigo entender descrições, sensações e principalmente acompanhar outra filosofia. Não apenas a constante batalha contra correntes e tempestades.

Também escrevi a outra pessoa sobre a opressão da sua vitalidade que brilha nas suas palavras - tão intensa e quase embaraçada, talvez por estar muitas vezes nas suas palavras, pequenos pedaços de escuridão mesclados com a consciência da necessidade de luzes acessas, a minha própria reflexão. Talvez um reclinar de espírito nestes dias em que as promessas não são mais do que memórias.

E vou esticando os braços e as pernas, sacudindo o cansaço, enquanto, pacientemente sigo a matutar na estranha fórmula de um Amor que se tornou líquido.  Caminho silencioso. Com as mãos escondidas. Porque sei ser capaz de entrar e não resistir a um sair de mãos cheias de certezas que não são minhas e sensações que podem espumar a minha tosca sensibilidade.

 

 

Não é fácil para mim esquecer-me do virtuosismo que alimenta a chama de certas criaturas. Pela necessidade urgente da sua presença. Pela sua capacidade de incendiar a minha consciência. Incendiando os meus pensamentos e quando pressinto a conclusão e solução do seu virtuosismo, esmaga-me os sentidos, deixando-me incapaz. Estupidamente frágil.

Ironia das ironias, a necessidade de outro para caminhar.  Um estranho artefacto, este, que comprime as memórias e me vai deleitando entre as horas de insónia. Estranha poção, esta, que alimenta o mais estranho cogitar, quando a hora deveria ser de descanso, e ainda assim, pacifica os sentidos.

É estranha a sua virtude. Capaz de se impor em mim pela força do seu rir, envolvendo-me em encantos que antes pensava conhecer, quando imaginava imunidade a um abraço, a um sussurrar que se tornou único ao meu escutar.

É neste saciar animalesco de sentidos que residem as suas virtudes. Na minha urgência que fique em mim. Que me aperte contra si e envolva os meus pensamentos.

E se estiver no seu virtuosismo a salvação?

Posso até sonhar com a redenção?

 

 

 






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