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Enquanto olho para ti, penso em encantamentos antigos. Sei que conheces alguns, capazes de curar dores e doenças; também sei da tua sabedoria entre sombras, que consegue erguer um coração do sono da desilusão. 

Mas eu sei de um toque que te encanta irremediavelmente; sei de outro que consegue rasgar armadilhas e abrir fechaduras escondidas; sei  de caminhos encantados por suspiros quentes e beijos que transformo em amuletos de virtudes mágicas.

Enquanto te vejo, é na tua arte que testemunho o saciar do fogo apenas pelo deslumbramento; de um ódio que se torna transparente, como as águas debaixo de um sol intenso. 

Ainda não sei de todos os encantamentos que são teus por devoção. Apenas porque sou uma criatura dobrada sobre a minha própria luz e sombra, são breves os instantes em que escuto a tua canção que adormece o vento e acalma a tempestade, a preciosidade que leva um navio para uma margem segura. Nessa canção é fácil encontrar o meu caminho de casa, sussurrar-te memórias antigas como o teu feitiço, e às vezes, porque me torno insolente contigo, tenho sonhos de poder, glória e sabedoria de mim próprio.

Acredito em ti...

E enquanto olho para ti, sei que tens outro encantamento que ainda hoje não consigo desvendar; o maior e o mais belo de todos; essa tentação que sabe a chuva e a sol ameno, a prazer que me recuso a confessar, a pacificação após a guerra, esse é o teu segredo supremo. Nunca  revelado a mim.

 

To the one far away

 

Suponho que as histórias sejam isso mesmo: são como pessoas, pássaros, canções sobre corações humanos... e sonhos. Pensamentos frágeis que, demasiadas vezes, não duram muito mais do que algumas palavras escritas. Ou então, penso que as histórias são palavras atiradas ao céu, pontuadas por sons, abstracções invisíveis, por isso tão quebradiças - capazes de me afogar em saudade - vou tentando que não fujam de mim uma vez contadas. 

Algumas histórias, pequenas, simples. quase etéreas, raras, contam outras existências, acreditam em milagres, verbalizam monstros e maravilhas tão sinuosas como olhares nocturnos ou pensamentos cintilantes que, gosto de pensar, irão ficar para além da existência do mortal comum. 

Apaixono-me por monstros de todas as formas e tamanhos. Alguns são terríveis! Outros assemelham-se a pessoas, e sonham com os dias longínquos em que pareciam assustar pela sua mera respiração. São os que vão curando as suas ilusões numa imparável decrepitude. 

Ah! ...

Mas são as histórias de monstros, invulgares e extraordinários, que mais acendem a minha paixão! Às vezes são coisas aparentes: criaturas quase transparentes e improváveis, monstros que as outras criaturas deviam temer e por pura arrogância e estupidez, não temem. E nada se torna mais apaixonante do que testemunhar a experiência que demonstra, categórica, a inutilidade de uma história de monstros arrogantemente estúpidos.

E então?...

Então, é tórrida a minha paixão por monstros, que por vezes, criam a verdadeira arte, porque enchem muitos lugares vazios da minha vida. Não todos. Mas alguns. Isso importa.

 

Gosto de seguir pelos teus atalhos, e pelas tuas cores; porque tens  mais alegria do que eu. Porque se revela, para mim, muitas vezes, primordial esticar a minha mão e deixar que se afogue em universos mais coloridos, como se fossem abrigos de tormentas. Luzes de aviso para o abismo. E posso muito bem ser eu a tua companhia - mesmo com esta eterna compulsão pelo que é negro e cinzento. Poderia embalar a tua insónia pela noite, apenas por sombras, entre a escuridão arqueada: bela e única!

Mas não.  

Por vezes, sinto-te próxima. Frágil e murmurante por labirintos e cores. De outras cores. Aquelas que usas pelo esquisso do teu pulso, tantas vezes em esforço para que os dias não terminem na indiferença. Então, é mais fácil para mim pressentir os caminhos onde cresces, onde batem ventos - às vezes inquietos, outras, estranhamente serenos -,  oiço o que cantas, mesmo no tamborilar esguio das palavras, mesmo não crescendo em arco-íris, as tuas cores são outras. Sabes, isso é meu conhecimento, esse amado sabor Satânico, venerado de lábios cerrados e olhos imensos.

Mesmo que um dia o esquecimento rasgue essas cores - finalmente, tudo encerrado -  o que eu deixarei permanecer será uma outra voz, mais iluminada,  quase um trinar claro, que conseguiu, por instantes, ausentar as sombras e as cinzas.

 

 

 

Eu conto os passos enquanto caminho entre os enormes ciprestes. Um artifício meu que ajuda a silenciar os pensamentos, enquanto me aproximo da imensa casa, cravada em pedra, sistematicamente banhada por um sol que parece não desaparecer. Conto cada um desses passos numa estranha forma - quase uma oração - de antecipação, tentando animar um espírito que tantas vezes se comporta como um velho bêbado sem regra, quando se aproxima da maciça porta da entrada, com o vento a assobiar nas costas, apressado em forçar a minha entrada. O coração aos pontapés no meu peito, apenas pacificado por memórias vitais -  uma saudade carnívora em cima dos meus ombros; como se eu fosse pródigo em algo e estivesse de regresso a quem sentiu a minha ausência.

E as sombras só abandonam os meus pensamentos quando escuto o ladrar do cão enorme. São uma voz rouca que soa como as janelas abertas pelo receio, - " um dia destes não ouvirei nada e um pouco de mim acabará aqui," - por isso os passos devem ser perfeitamente contados até que a imensa casa se erga na minha frente. Até que o enorme cão uive, sentindo o meu cheiro. Sei - porque o cão fala comigo - que ainda tudo está bem. Os seus olhos são os olhos do homem que me abraça com força, cerrando o olhar azul baço onde não entram luzes, uma lágrima grossa escorrendo pela face coberta de uma enorme barba branca - alva como os dias sem tempestade e o brilho do sol entorpece os sentidos embriagados.

E solta gargalhadas sonoras que enchem todas as salas iluminadas enquanto o cão salta pesadamente e ladra com uma brutalidade meiga. O que cintila em mim é algo raro e demasiado precioso: pertencer a algo. Ser uma parte do contentamento de alguém. Deixar que o coração se torne num oceano - por instantes fugazes permitir o meu afogamento sem resistir. Não só entre as estantes e os livros. Não apenas debaixo da luz que se estica pela entrada do tecto. Também pela reverência do seu trajar e até do seu caminhar direito. Por outras cores sem toques negros - ainda que cinzentas mais belas - pintadas pela voz suave de uma idade que parece não ceder ao tempo. Porque se conjugam e alinham  estrelas num perfeito momento quando o canzarrão fiel se une a nós num trio inexplicável mas perfeitamente harmonioso.

Sei muito bem que sim.

O Universo escuta naqueles instantes. Respira-nos sem raiva. Viaja connosco invisível e descansando nas páginas de livros que gosto de ler em voz alta mas não demasiado firme. Conta os nossos batimentos de vida em silêncio - não vá o guardião falar e partir os céus! Dobra-se até ao fim para escutar e sonhar connosco.

Um pouco mais de saudades para encher ainda mais os meus dias. Um pouco mais dolorosas - quando eu pensava que pior seria impossível.

 

 

Aquele preciso momento de iluminação cravado nos olhos como uma visão dos Deuses que incendeia os sonhos, que engana a  razão e transforma as longas semanas de escuridão numa porta para um paraíso. Deixo que a magia exista nos breves instantes em que respiro sonhos e uma estranha loucura entre com passos mansos dentro do meu espanto. Volto a acreditar em mundos secretos inexplorados pelos meus sentidos ciumentos e esfomeados. Inspiro um sonhar nocturno que misturo com outros sonhos porque não existem noutros locais, são reais naqueles momentos mesmo não sendo matéria nem partículas, são verdadeiros abrigos naqueles instantes, porque são imagens, memórias, esperanças conquistadas mas também perdidas irremediavelmente.

Fico silencioso. Absorto com uma dança de estrelas infinitas. Incapaz de mover um músculo mesmo debaixo de um frio tirano. Quieto, de olhos fixos no céu, uma paixão a correr no meu sangue, uma imensa certeza de pertencer a algo. Todo o amanhã poderia começar naquelas luzes e encantos. Estes são instantes em que o Céu nunca me pareceu mais Céu; o Mundo nunca me pareceu mais Mundo. São os minutos em que recuso o instinto de abrir os braços e deixar que me absorvam luzes, as luzes e o espanto infantil, porque sei que dançaria como um bobo incapaz numa dança ridícula e desajeitada. 

E é isto a felicidade? Frágeis instantes, tão imensos que me provocam medo e recuso a ceder a emoções tintas de sombras e portentos de luz. Quando o discurso se apaga e o coração bate intenso contra o peito sei que as recordações nunca se extinguirão, que talvez ceda a um abraço no escuro, mesmo sabendo que esse escuro não se afastará, que os pesadelos ainda caminham, que outros braços não me farão sentir salvo mas mais acompanhado. Se calhar escutar um suave sussurrar " estou contigo e nunca te deixarei" e por instantes acreditar. Mesmo sabendo que todos mentimos acreditar que se calhar é verdade.

 

 

 

 

 

 

O que mais custa é deixar que esse sentimento fuja do nosso alcance. É doloroso o esforço de quem tenta agarrar algo ou alguém que se recusa a ficar ao nosso lado. Tudo que fica é um sabor criminoso pelo simples facto de sentir algo. De querer algo. É como ficar arrependido por desejar e ser desejado. Aqui o caos tem o sabor do pensamento dos que desistem por achar que estão errados e a tentar nadar por águas turvas.

Mas talvez algures alguém ainda pense em mim. Se calhar alguém pensa em mim como em anjos e não demónios, enquanto vai usando as cores de uma estranha nebulosa para cobrir o meu corpo. Como uma visão esculpida apenas na mente - um respirar apenas pelos lábios perante um toque. Um pensamento de salvação para mim. Um chamamento silencioso que eu respondo sem lá estar.

Para mim tão cristalino e puro. Tão imensamente raro como aquela gargalhada que carrega consigo o supremo poder da salvação. Tão maravilhosamente delicioso como o conhecimento de que outro desconhece a sua capacidade de cauterizar as minhas feridas. Como pressentir o toque suave da química que afasta a tristeza. Como uma necessidade minha e violenta de oferecer tudo o que está curvado nas sombras.

Sim. Isso mesmo. Porque por vezes tudo é belo. Tudo é violento.

 

 

 

Se assim permitires eu serei o teu desejo de Entropia - o imprevisto das tuas palavras - a medida do teu Caos. O teu último reflexo de um bailado num palco solitário. Deixa que seja eu a deixar esmorecer as luzes desse palco, com a tua vénia final.

Por vezes sou essa sombra reclinada sobre as tuas páginas em branco, aguardando ofertas e chaves e caminhos.

Outras noites sou o abrigo da tua escrita que assobia Invernos profanos, tempestade tranquila que fustiga a rocha. Vejo-te nua nas frases e consigo, por estranhas artes, ouvir o teu coração a bater devagar. Baixinho. Tímido.

Um e outro vou deixando os teus acentos esvoaçar nestes céus. Guardo apenas ciclos fugazes de brilho, faíscas que queimam o horizonte e se afundam lá muito acima entre as névoas.

Mas guardo nas minhas palavras os segredos de quem te viu no limiar de espinhos; quem te sentiu e ouviu nas sombras. Reservo-te para os meus estudos feitos de Invernos em Verões há muito esquecidos. 

Sim.

Porque me atrevo a balançar sonhos pelo teu punho de escrita. Enquanto aqueço os pensamentos sem as fogueiras do Caos escuto o teu murmurar na varanda - uma serena melodia de notas que vais escrevendo como encantos perdidos para tantos - mas que eu reconheço como tuas singularidades.

 

 

O que anseio é esse corromper desta harmonia. Esse encantar premeditado que consegue encher estes dias longos, vagarosamente. Ensina-me a respirar de novo. Regressando por pensamentos onde habitam as memórias que, e eu sei, estão  resguardadas.

E sei desta minha arrogância escurecida pelo orgulho quando regresso aos teus passos, enquanto vou vampirizando as cores e as transformo nesta corrupção de harmonias: devagarinho pelos degraus escorregadios como as sombras. Vou criando as escarpas do meu caminho com as esperanças e brilhos subtraídos. 

Esquivo. Sorrateiramente.

Orgulhosamente sempre gostei de labirintos que conduzem a destinos que não são meus. Gosto de ali pernoitar enquanto vou tecendo sintomas escondido. Sem a mácula da vergonha consigo brindar a mais uma chave, que abre mais uma fechadura de ferro forjado de pensamentos que não são para mim. Não são meus. Mas esse é o verdadeiro gene do viajante infatigável - vai  saciando a sede em todas as fontes.

 

 

 




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