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O primeiro artefacto encontrado pelos que se entregam ao encantamento de um silêncio isolado é esse apego ao calor humano. Não é um aconchego de quem estende os braços e anseia agarrar o mundo à volta. Esse é um calor que não aquece. Apenas alguns fenómenos que respiram conseguem quebrar estes silêncios com o seu calor, como fissuras por onde algo insiste em crescer e aceitar o som das palavras que sibilam. 

São demasiadas as vezes que a porção mais preciosa e humana que o encantamento de um silêncio pode oferecer se espelha na combinação da solidão da floresta enevoada, onde cada sopro do vento parece carregar os suspiros do que lamentamos e pareceu esquecido, quando as paredes brancas se transformam em momentos de melancolia sossegada e abraço a uma certa escuridão, enquanto vai descobrindo a beleza que se esconde dentro dela. Esta emoção tão crua e desfigurada pelo apuramento dos sentidos, desperta uma crueldade interior carnívora e viciante, como uma membrana interna de salvação, mas é uma preciosidade oferecida em troca da raridade desse calor humano único. Inconfundível. Que tresanda ao odor de um porto de salvação no meio do caos silencioso.

É um presságio de vida humana que aquece sem incendiar mas que assombra as saudades e quase asfixia as certezas desse encantamento e silêncio isolado.

(Fleuma)

"Yeah, you waited on Satan's call"

Ozzy Osbourne

"Tenta. Fracassa. Não importa. Tenta outra vez. Fracassa de novo. Fracassa melhor."

Samuel Beckett

 

O "perdão" é o estado emocional mais extremo em mim. Nunca consegui compreender realmente este sentimento sem a violência de uma cedência pessoal, demasiado intima. Nem sequer pela virtude das religiões. Muito menos pela presunção de que sem perdoar tudo o que me resta é a vingança ou o rancor. Creio antes que se trata da assunção da nossa falta de perfeição. Creio que essa dificuldade com a noção de "perdão" é tão primária e visceral que perdoar se torna numa espécie da acto de auto mutilação pessoal, porque só deveria existir perante algo violento e arrasador para mim. E nunca será fácil perdoar esses instantes ou gestos. Não existe qualquer candura neste vergar pessoal e nesta concessão valiosa a outros. Um pedaço imensurável da minha confiança é devorado e sei que não a voltarei a recuperar. Estes são rigores de quem perdoa realmente e sem falhas. Fica essa compulsão de fragilidade que nunca consegui compreender porquê. Porque não apenas amansar o fardo e aceitar?

Custa.

É isto que custa. Substituir uma traição pelo "perdão" e restar o remorso do que vai desaparecer. 

E sei também que me exponho ao "perdão" de alguns - a outra grande maioria nunca me importou. Esse esperar o "perdão de alguns" tem para mim o som dos tambores de guerra. Escuto-os sem falsas esperanças. Orgulho? Talvez. Ou então compreensão. Sei que tenho a necessidade de ser perdoado da mesma forma que devo perdoar. Essa é uma consequência minha que não deve ser  culpa de ninguém. Apenas minha. Mas também sei que morrerei sem ser perdoado por alguns.

E sem perdoar.

Em minha defesa apenas posso descansar na gentileza do sabor dos que realmente me concederam o seu "perdão". São esses que me importam porque guardo em mim os seus pedaços como memórias e flagelos no meu orgulho. Estes sabem também o que lhes ofereci.

(Fleuma)

 

 

 

 

"Odeio a sabedoria desses homens a quem as verdades não afetam, que não sofrem por causa dos seus nervos, da sua carne e do seu sangue. Só amo as verdades vitais, as verdades orgânicas saídas da nossa inquietude.", Emil Cioran

 

A solução não é esquecer. Muito menos adormecer na ilusão de que não fui tão culpado como cego no meu próprio egoísmo. 

De resto, recuso deixar que essas cicatrizes se convertam ao sossego com o passar dos anos. Não e não!

Nem sequer permito esse consolo de quem apaga o remorso. Quero que fique na minha memória para sempre, ao sabor do seu envenenar e mutilar.

Aceito-o como meu e apenas meu. Enquanto eu existir será carregado por mim e apenas por mim.

Ninguém mais!

(Fleuma)

 

Zdzisław Beksiński

 

 

O fantasma interior

 

"Acho que é esse o meu território de passagem, nesse labirinto recolhido e sombrio em que raras vezes se observam os olhos, mas onde, sem que seja por mim, também as palavras se tornam carregadas, sensuais naquela espécie de luto puritano, quase a roçar um beijo soturno e proibido. Nunca me pareceu bem a escrita que tem o punho leve como a pena de um pássaro, creio que se perdem em mim essas expressões de benevolência, parecem ser um atributo de escritores que se imaginam em frente às portas douradas da Virtude. O excesso que carregam certas linhas justifica esta minha obsessão por uma escrita cromática, ainda que rara nos pulsos de certas criaturas, e que apenas parece erguer-se nos dias em que as suas correntes se alongam.

Sim. É isso mesmo.

Tão obsessivo como esta paixão desmedida pela pintura de pesadelos de Zdzislaw, que varre o meu surrealismo e a minha distopia, é precisamente nesta vitalidade que se encontram as minhas maiores paixões, quando alguém escreve e deixa que se abram as portas de alma. Por isto prefiro os que desnudam os seus Invernos bem mais do que aqueles que apenas procuram os dias amenos, os que muitas vezes e sem o notarem, tocam na sua própria brutalidade, e ainda sem o reconhecerem, a convertem numa arte.

Gosto disso, então. 

Insistindo sempre nas palavras que também eu tento absurdamente escrever, sem um trago de talento que não sejam apenas rasgos sem polimento, tudo se conforma quando leio aqueles que escolhi como meu prazer pessoal, a elite que arrogantemente eu estabeleci como preferida, a que nem sempre suspeita dessa mesma escolha. Gosto do despudor descomposto e falsamente disperso dessa escrita tão genial nos monstros que me alimentam os dias, quase todos a ressoar do passado, o que aumenta a certeza de que estes não são os meus dias, de que faço parte de um outro tempo, bem como dessa minoria, perfeita desconhecida que escreve na sombra de mais um dia. Gosto descaradamente dos seus pensamentos cinzentos e violentos, da percussão em semitom dos seus corações quando deixam que se instale uma nebulosa de desilusão e fúria, onde é possível escutar a pausa do pensamento que rumina entre a implosão e a cedência da negação. É nesse preciso e precioso instante em que se abrem as primeiras palavras e rangem os dentes porque é Inverno, e o Verão não se atreve a uma aproximação, que gosto do balanço das emoções que certas pessoas - criaturas deixam transparecer, escuras mas não opacas, e algumas são até como eu na arte de recortar os seus delírios sombrios, apenas mais suaves nos rasgos, menos extasiadas por labirintos e abismos."

(Fleuma)

Escutar ...

Um joelho no solo ...

A cabeça reclinada ...

Encostada ao espírito ...

Sem adormecer ...

Que o sonho é sibilante apenas ao escutar da insónia ...

(Fleuma)

 

A insistência dos que negam o valor imensurável da violência em nós carrega sempre aquele fardo de uma cegueira obstinada e ignorante, apenas corporizada na ideia de que tudo o que é violento provoca dor e sofrimento. Sei um pouco dessa violência. Da minha violência pessoal. Nada no mundo exterior consegue ser mais brutal e doloroso do que a minha própria capacidade de abuso de força em mim próprio, porque conheço todo o meu catecismo de aflição intima, sou um mestre no manejar do chicote do algoz e pouco me importam os que pensam nisto como uma impossibilidade. Reconheço-lhe certos labirintos de escuro absoluto onde demasiadas vezes me arrasto por buracos, e muitas vezes pareço ceder e ajoelhar. E no entanto é esta a violência deste mundo. Através desta lente tenho visto a mecânica complexa de outras criaturas com uma clareza que as transforma em engenhos preciosos. No reconhecer destas pulsões tenho adormecido num assombro que de uma outra forma, negando, nunca aconteceria. A violenta capacidade do ser humano para fomentar a discórdia, as doutrinas ideológicas que sistematicamente nos arrastam para o abismo e o nosso talento para criar destruição, são apenas algumas derivações desta violência. 

Mas, e essa violência forjada numa brutalidade muito pessoal e que a transforma numa beleza divina? Algo visceral e convulsivo. E a violência torcionária da Natureza que de tão brutal ser se torna num principio único e imutável?

Sou violento! 

Sei que o sou nas minhas paixões e entregas. Eu sei que tudo em mim se reduz demasiadas vezes a testar e a calibrar emoções; necessito de uma mão para sair do fosso onde me deixo resvalar sem a pretensão de voltar a subir. O ódio, a raiva, são tão possantes como o amor que eu sinto, e já bebi muitas vezes deste estranho caldo para aceitar também a violência como um acto de entrega e sacrifício por outros. Esta clareza de quem sabe em cada fibra de si que certos sacrifícios por outros seriam perfeitamente justos e aceites sem um pestanejo tem tanto de violento como de belo. Talvez até seja o que quem me desconhece sempre gosta de afirmar - algo nisto me torna numa criatura perigosa. Não conseguem destrinçar o cinismo e o calculismo frio das minhas devoções. Se o soubessem, nem que fosse apenas por instantes, saberiam que o meu sacrifício seria apenas em nome de alguns, uns poucos; que jamais o faria em nome de um martírio religioso ou político! Que a beleza profana de uma certa violência, para mim, apenas encontra sentido na cedência aos que me arrastam dos buracos e nunca me abandonam.

E pouco me importam os que não acreditam e achariam impossível aceitar esta certeza.

(Fleuma)

 

Oiço com frequência o elogio à capacidade da memória de certas pessoas, quase mecânica, onde basta a pressão de um botão para uma impressão clara e sem falhas. A minha, talvez porque pratico cada vez mais esse estranho e obscuro culto de procurar o isolamento físico entre as florestas e as montanhas, tem o padrão sombreado das estantes com pensamentos sem títulos ou notas de orientação.  Apenas eu, porque me arrasto há anos entre as estantes e labirintos da minha memória, consigo sentir esse sabor tão profano e delicado de uma recordação que desperta em mim a impressão de um grande momento a acontecer. E por vezes são momentos que surgem do passado. Mesmo sem as anotações de margem, ainda que não conseguindo a eficácia da máquina mental, eu sei que as memórias são como as pessoas, às vezes surgem à nossa frente como um livro que cai de uma prateleira. 

Conheço criaturas que são como as florestas; observadas na distância parecem sólidas e unidas como árvores densas, compreensíveis e em harmonia, mas quanto mais me aproximo mais se separam, mais se rasgam as luzes e as sombras num cegar momentâneo. São memórias que surgem sem forma, para logo a seguir crescerem em detalhes que enchem tudo à sua volta.

São como florestas que dormem na névoa cinzenta, mas também emitem sons pardos que pensamos perdidos, cintilam em pequenos rasgos de luz solar, caminham para nós entre os estalidos das folhas e dos ramos secos das manhãs sossegadas; são tantas vezes, pequenos animais de olhos brilhantes, que pela nossa estupidez desajeitada, podem fugir amedrontados e desaparecer entre as estantes, acabando apenas por restar o silêncio e as flores. 

Creio que estes grandes momentos são seduções fragmentadas que ajudam a transformar as punições da existência; estão é muitas vezes descoloridos pelo tempo no caos da nossa lembrança, e pelo nosso estúpido hábito de alimentar o silêncio do esquecimento.

(Fleuma)






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