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Nós não fomos escolhidos. Nós escolhemos este caminho. Nós. Sabemos do sofrimento, da punição da fragilidade corporal, e da condenação a um fim previsto de ossos partidos e dependência de uma cadeira que roda. Nós sabemos disso. Enquanto tanta gente corria apressada, sabíamos dessa sentença, desse paralisar de membros, da perfeita noção de julgamento da nossa carne e sangue pela desesperança. 

Sabíamos.

Mas não aceitamos ser os escolhidos. Não. Nós é que escolhemos estes caminhos de labirintos. Nós vivemos nesta Ilha como lobos famintos, com a Luz ou a Escuridão perpétua nos nossos olhos. Em silêncio, como este Horizonte desolador, violentos como as incessantes vagas deste Mar gelado que nunca adormece. E é nosso o desejo de subir ao Céu, viajar entre os Ventos. Ou então, mergulhar nesta terra até ao seu centro, ao fundo do mundo, como velhos Deuses.

Este momento de compreensão, este bater insofismável do coração que descobre não estar perdido, talvez consiga explicar essa alegria desconhecida que descobre a nossa face. O doce extasiar do sobrevivente. O aceitar do Caos.

 

 

 

Creio, sinceramente, que aos teus olhos, me assemelho a uma criatura estranha: fechada, orgulhosa e arrogante. Creio que é esse o principio mais básico: o meu julgamento. Porque também eu sou juiz e não apenas julgado. E creio, para minha admiração, que tu vais deixando a porta entreaberta em ti, como se  necessário para deixar aparecer algum azul nos dias de chuva e trovoada cinzenta. Um gesto de bravura cautelosa mas imensamente corajoso. É como se, por breves, raros instantes, destapasses o pescoço numa demonstração de fragilidade que, sistematicamente, nos outros dias, tentas ocultar.

E sinto-me humano, sabes? Saber-te capaz de escrever a ausência de empatia e remorso, enquanto vais, devagarinho, juntando as emoções, deixas mais uma janela aberta para um mundo que não conheço. Talvez seja exactamente isso que eu vejo, algo humano, capaz de sentir ódio e desprezo, bem como amor por algo. Isso. E não apenas a capa dourada das boas intenções.

Sou julgado muitas vezes. Demasiadas, mesmo para mim. Sou culpado, muitas vezes, porque me recuso a perdoar o que deveria ser perdoado e a esquecer o deveria ser enterrado na memória do tempo. Pouco me importam os que que não perdoam os meus pecados, os que não esquecem as minhas dentadas, mas gostaria de colocar um joelho na terra e assegurar-te que por vezes, estranhamente, consegues fazer-me sentir humano, capaz de algo muito para além da solidão e vontade de partir. É quase uma porta que se entreabre, fresca e mesmo assim, um brandir de recordações luminosas, sempre acompanhadas por sombras.

Não escreverei sobre a música que venero. Aqui vou deixando apenas partículas de um princípio. O que está profundamente enterrado, essa música que oculto, essa minha doutrina que também toco e canto, sei que me tornaria irreconhecível e tu não voltarias a descerrar portas.

 

Fleuma, 

 

Certas palavras são como canções que não nos pertencem no tempo, são um ressoar de surpresa, um rugido silencioso nas sombras. Proferidas, rasgam os sentidos destruindo a distância.

Escritas?

São estranhamente belas, impossíveis, e podem pertencer a qualquer imprudente afortunado que nelas encontre um porto de abrigo. Por vezes, são escritas com aquele vigor imponente que nos arrasta pela sua força sinuosa e sonhadora. São raras estas palavras, traçadas com aquele dignificar proibido que consome a nossa chama primordial. Gosto de dobrar a minha cabeça sobre elas e sorver alimento pontificado, sentir-lhes os ventos escuros e frios dos seus dias, deixar latejar o meu coração fantasma na certeza de que mesmo não sendo para mim, por alguns instantes, estive presente. Lado a lado.

E quando as sinto como minhas?

São como canções que sempre me pertenceram. Porque é assim que desejo. Que sejam canções por mim conhecidas, fustigadas por forças que tantas e tantas vezes chamo e de quem conheço todos os nomes. E gosto de nomes. Gosto de saber nomes como se fosse necessário para justificar a minha necessidade de as tornar minhas.

Olhadas da sombra, certas palavras são tão belas como tentações para os malditos.

E cintilam. Como os fogos primordiais em pergaminhos proibidos.

 

Fleuma,

 

 

“É a autoridade, não a verdade, que faz a lei.”

THOMAS HOBBES

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O perigo reside na incapacidade de aceitação de toda e qualquer noção que se desvie da norma habitual, estabelecida, gravada, imposta, em nome de um bem comum. É como se, subitamente, todas as ideias de livre-pensamento, livre-arbítrio, fossem remetidas para um canto de condenação, enquanto se vão impondo trejeitos, gestos, pequenos esgares de quem governa, em nome de uma retórica de felicidade, protecção, e principalmente, bem-estar colectivo. Porque é disso mesmo que se trata: imposição pela incapacidade de reagir, pelo medo da Morte, e porque é desesperante ser forçado a sair de uma zona de conforto imaginária, deixar a rotina prevista dos dias, mais se torna necessário que sejam outros a agir por nós.  

Na raça humana, nunca será possível a convivência sem Ideologias Autoritárias. Porque são a cola das sociedades, esta imposição forçada de limites, confinamentos e máscaras que nos retiram o reconhecimento. Temos uma necessidade ancestral, infantil, frágil, da protecção dos outros. Necessitamos de aprovação e conformidade. Por isso, qualquer expressão de individualidade,  vontade de escolher, que se oponha, suscita uma reacção opressiva e tirana. 

Não existe realmente, uma ilusão nesta incapacidade de agir sós. Pouco importa a mais grotesca distorção do conceito de Ciência que deve sistematizar o questionar de si mesma, quando esta, por estes dias, se tornou divina e inquestionável - mesmo que padeça das dores da contradição -, é impossível qualquer pensamento remissivo, porque esta "nova Ciência" caminha a passos largos para um estado de graça que a tornará dogmática e sacrossanta. Contra todas as virtudes da dúvida e do questionar mais básico.

Não deveria ser necessário insistir na ideia de liberdade pessoal, mesmo que essa nunca seja total. Nem sequer seria necessária a insistência na virtude pessoal de escolher o que queremos ou não dentro do nosso corpo, mas porque se trata de uma "democracia", a maioria consome a minoria, e porque essa "democracia" nada mais é do que uma forma benigna da ditadura mais cega, é absolutamente essencial manter acessa a virtude do individualismo, porque sabemos como se tornam fáceis as cerimónias de marcha a passo de ganso e saudação de braço levantado ou as revoluções vermelhas de aniquilação colectiva.

Somos todos culpados. Todos!

Porque somos incapazes de manter a nossa privacidade, porque temos uma fome tão intensa de protagonismo, depositamos nas tecnologias de comunicação a nossa confiança mais cega, por isso seguimos tudo o que está dito e escrito como um guia de sobrevivência, ao nível mais alto da imbecilidade. E talvez seja merecido. Afinal, Roland Barthes tinha razão: o Fascismo não consiste em impedir que as pessoas falem. Antes pelo contrário, consiste em forçar as pessoas a falar. E são as redes de comunicação com toda a extracção de informação pessoal, propaganda ideológica, e falta de privacidade, muito mais precisa do que a linguagem, que, sistematicamente, se revelam a base perfeita para doutrinas totalitárias. 

É no som do Flautista de Hamelin que se justifica a "guerra de todos contra todos" de Hobbes e o nascimento  dos extremismos.

 

 

Enquanto olho para ti, penso em encantamentos antigos. Sei que conheces alguns, capazes de curar dores e doenças; também sei da tua sabedoria entre sombras, que consegue erguer um coração do sono da desilusão. 

Mas eu sei de um toque que te encanta irremediavelmente; sei de outro que consegue rasgar armadilhas e abrir fechaduras escondidas; sei  de caminhos encantados por suspiros quentes e beijos que transformo em amuletos de virtudes mágicas.

Enquanto te vejo, é na tua arte que testemunho o saciar do fogo apenas pelo deslumbramento; de um ódio que se torna transparente, como as águas debaixo de um sol intenso. 

Ainda não sei de todos os encantamentos que são teus por devoção. Apenas porque sou uma criatura dobrada sobre a minha própria luz e sombra, são breves os instantes em que escuto a tua canção que adormece o vento e acalma a tempestade, a preciosidade que leva um navio para uma margem segura. Nessa canção é fácil encontrar o meu caminho de casa, sussurrar-te memórias antigas como o teu feitiço, e às vezes, porque me torno insolente contigo, tenho sonhos de poder, glória e sabedoria de mim próprio.

Acredito em ti...

E enquanto olho para ti, sei que tens outro encantamento que ainda hoje não consigo desvendar; o maior e o mais belo de todos; essa tentação que sabe a chuva e a sol ameno, a prazer que me recuso a confessar, a pacificação após a guerra, esse é o teu segredo supremo. Nunca  revelado a mim.

 

To the one far away

 

Suponho que as histórias sejam isso mesmo: são como pessoas, pássaros, canções sobre corações humanos... e sonhos. Pensamentos frágeis que, demasiadas vezes, não duram muito mais do que algumas palavras escritas. Ou então, penso que as histórias são palavras atiradas ao céu, pontuadas por sons, abstracções invisíveis, por isso tão quebradiças - capazes de me afogar em saudade - vou tentando que não fujam de mim uma vez contadas. 

Algumas histórias, pequenas, simples. quase etéreas, raras, contam outras existências, acreditam em milagres, verbalizam monstros e maravilhas tão sinuosas como olhares nocturnos ou pensamentos cintilantes que, gosto de pensar, irão ficar para além da existência do mortal comum. 

Apaixono-me por monstros de todas as formas e tamanhos. Alguns são terríveis! Outros assemelham-se a pessoas, e sonham com os dias longínquos em que pareciam assustar pela sua mera respiração. São os que vão curando as suas ilusões numa imparável decrepitude. 

Ah! ...

Mas são as histórias de monstros, invulgares e extraordinários, que mais acendem a minha paixão! Às vezes são coisas aparentes: criaturas quase transparentes e improváveis, monstros que as outras criaturas deviam temer e por pura arrogância e estupidez, não temem. E nada se torna mais apaixonante do que testemunhar a experiência que demonstra, categórica, a inutilidade de uma história de monstros arrogantemente estúpidos.

E então?...

Então, é tórrida a minha paixão por monstros, que por vezes, criam a verdadeira arte, porque enchem muitos lugares vazios da minha vida. Não todos. Mas alguns. Isso importa.

 

Gosto de seguir pelos teus atalhos, e pelas tuas cores; porque tens  mais alegria do que eu. Porque se revela, para mim, muitas vezes, primordial esticar a minha mão e deixar que se afogue em universos mais coloridos, como se fossem abrigos de tormentas. Luzes de aviso para o abismo. E posso muito bem ser eu a tua companhia - mesmo com esta eterna compulsão pelo que é negro e cinzento. Poderia embalar a tua insónia pela noite, apenas por sombras, entre a escuridão arqueada: bela e única!

Mas não.  

Por vezes, sinto-te próxima. Frágil e murmurante por labirintos e cores. De outras cores. Aquelas que usas pelo esquisso do teu pulso, tantas vezes em esforço para que os dias não terminem na indiferença. Então, é mais fácil para mim pressentir os caminhos onde cresces, onde batem ventos - às vezes inquietos, outras, estranhamente serenos -,  oiço o que cantas, mesmo no tamborilar esguio das palavras, mesmo não crescendo em arco-íris, as tuas cores são outras. Sabes, isso é meu conhecimento, esse amado sabor Satânico, venerado de lábios cerrados e olhos imensos.

Mesmo que um dia o esquecimento rasgue essas cores - finalmente, tudo encerrado -  o que eu deixarei permanecer será uma outra voz, mais iluminada,  quase um trinar claro, que conseguiu, por instantes, ausentar as sombras e as cinzas.

 

 

 

Eu conto os passos enquanto caminho entre os enormes ciprestes. Um artifício meu que ajuda a silenciar os pensamentos, enquanto me aproximo da imensa casa, cravada em pedra, sistematicamente banhada por um sol que parece não desaparecer. Conto cada um desses passos numa estranha forma - quase uma oração - de antecipação, tentando animar um espírito que tantas vezes se comporta como um velho bêbado sem regra, quando se aproxima da maciça porta da entrada, com o vento a assobiar nas costas, apressado em forçar a minha entrada. O coração aos pontapés no meu peito, apenas pacificado por memórias vitais -  uma saudade carnívora em cima dos meus ombros; como se eu fosse pródigo em algo e estivesse de regresso a quem sentiu a minha ausência.

E as sombras só abandonam os meus pensamentos quando escuto o ladrar do cão enorme. São uma voz rouca que soa como as janelas abertas pelo receio, - " um dia destes não ouvirei nada e um pouco de mim acabará aqui," - por isso os passos devem ser perfeitamente contados até que a imensa casa se erga na minha frente. Até que o enorme cão uive, sentindo o meu cheiro. Sei - porque o cão fala comigo - que ainda tudo está bem. Os seus olhos são os olhos do homem que me abraça com força, cerrando o olhar azul baço onde não entram luzes, uma lágrima grossa escorrendo pela face coberta de uma enorme barba branca - alva como os dias sem tempestade e o brilho do sol entorpece os sentidos embriagados.

E solta gargalhadas sonoras que enchem todas as salas iluminadas enquanto o cão salta pesadamente e ladra com uma brutalidade meiga. O que cintila em mim é algo raro e demasiado precioso: pertencer a algo. Ser uma parte do contentamento de alguém. Deixar que o coração se torne num oceano - por instantes fugazes permitir o meu afogamento sem resistir. Não só entre as estantes e os livros. Não apenas debaixo da luz que se estica pela entrada do tecto. Também pela reverência do seu trajar e até do seu caminhar direito. Por outras cores sem toques negros - ainda que cinzentas mais belas - pintadas pela voz suave de uma idade que parece não ceder ao tempo. Porque se conjugam e alinham  estrelas num perfeito momento quando o canzarrão fiel se une a nós num trio inexplicável mas perfeitamente harmonioso.

Sei muito bem que sim.

O Universo escuta naqueles instantes. Respira-nos sem raiva. Viaja connosco invisível e descansando nas páginas de livros que gosto de ler em voz alta mas não demasiado firme. Conta os nossos batimentos de vida em silêncio - não vá o guardião falar e partir os céus! Dobra-se até ao fim para escutar e sonhar connosco.

Um pouco mais de saudades para encher ainda mais os meus dias. Um pouco mais dolorosas - quando eu pensava que pior seria impossível.

 

 

Aquele preciso momento de iluminação cravado nos olhos como uma visão dos Deuses que incendeia os sonhos, que engana a  razão e transforma as longas semanas de escuridão numa porta para um paraíso. Deixo que a magia exista nos breves instantes em que respiro sonhos e uma estranha loucura entre com passos mansos dentro do meu espanto. Volto a acreditar em mundos secretos inexplorados pelos meus sentidos ciumentos e esfomeados. Inspiro um sonhar nocturno que misturo com outros sonhos porque não existem noutros locais, são reais naqueles momentos mesmo não sendo matéria nem partículas, são verdadeiros abrigos naqueles instantes, porque são imagens, memórias, esperanças conquistadas mas também perdidas irremediavelmente.

Fico silencioso. Absorto com uma dança de estrelas infinitas. Incapaz de mover um músculo mesmo debaixo de um frio tirano. Quieto, de olhos fixos no céu, uma paixão a correr no meu sangue, uma imensa certeza de pertencer a algo. Todo o amanhã poderia começar naquelas luzes e encantos. Estes são instantes em que o Céu nunca me pareceu mais Céu; o Mundo nunca me pareceu mais Mundo. São os minutos em que recuso o instinto de abrir os braços e deixar que me absorvam luzes, as luzes e o espanto infantil, porque sei que dançaria como um bobo incapaz numa dança ridícula e desajeitada. 

E é isto a felicidade? Frágeis instantes, tão imensos que me provocam medo e recuso a ceder a emoções tintas de sombras e portentos de luz. Quando o discurso se apaga e o coração bate intenso contra o peito sei que as recordações nunca se extinguirão, que talvez ceda a um abraço no escuro, mesmo sabendo que esse escuro não se afastará, que os pesadelos ainda caminham, que outros braços não me farão sentir salvo mas mais acompanhado. Se calhar escutar um suave sussurrar " estou contigo e nunca te deixarei" e por instantes acreditar. Mesmo sabendo que todos mentimos acreditar que se calhar é verdade.

 

 

 

 

 






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