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Começa por ser um enigma silencioso envolto naquela inquietação de quem tenta balançar as emoções. Nas primeiras horas da madrugada, quando a claridade ainda não consegue rasgar a espessura dos céus negros,  despertam as paixões mais intensas. Viajo trezentos quilómetros de uma ponta a outra sem premeditação, entre questões sem resposta, numa  estranha forma de catarse, incapaz de permanecer imobilizado - traindo os sentidos num sonolento iludir.

Por vezes desperto num outro local como quem acaba de abrir os olhos, ainda mergulhado no espairecer de um sonho, e é a enorme caneca de café negro, a imensa fatia de pão escuro torrado com azeite e o mais saboroso queijo que me devolvem outra realidade. As horas são escorridas num limiar - ora inerte nos pensamentos batidos pelos ventos mais distantes ora desperto em frente ao rebentar das águas e incapaz de calcular as horas que se esfumam.

Este é o estado mais próximo do afastamento total. Uma quase paralisia silenciosa e consentida, entrançada numa qualquer ânsia que ainda desconheço nestes dias. Esta fome inesgotável que me arrasta os passos como se o mundo fosse acabar e com ele se desfaçam os meus sonhos. 

Já não procuro a justificação para esta vontade. Antes deixei que a minha rendição justificasse a sua melodia de sereia. 

E ela continua a segredar promessas quando regresso.

De novo adormecido no berço da distância que vai embalando o meu olhar e a minha paixão por espaço.

 

 

 

A necessidade extrema de revisitar locais onde me senti como presente - não um estranho - aparece muito bruscamente. De repente, e demasiadas vezes, violentamente. São por vezes as palavras que me assaltam os sentidos. Como um gesto comedido que consegue abrir uma porta. Às vezes isso basta - uma expressão que se transforma  em olhos que não são meus. 

Talvez seja uma obsessão minha. Talvez.

Mas é  quase mística a essência de quem consegue despertar esta emoção. Um estado de antecipação que consegue acordar em mim uma consciência que não me é estranha. Mesmo que não a consiga explicar não me é estranha. 

São palavras e sentimentos que me recordam a vontade de um dia regressar a onde sei estar o meu lar. A minha casa. Porque por vezes, pareço perder-me nos passos que vou dando em sua direcção. E a imagem desse local a que pertenço quase parece transformar-se em névoa, vou ficando cego. Então, talvez porque alguém desconhece a sua virtude de adormecer desesperos,  aparecem palavras como portentos, sentimentos de familiaridade, pequenos pedaços de luz onde me sinto estranhamente bem-vindo. Gestos amenos, por vezes difusos, como que embaraçados, mas  que pacificam a extensão das minhas ausências e incapacidade de permanecer quieto. Dentro destas passagens escritas permaneço como alguém cuja ausência foi sentida e agora tudo se tornará sereno e tranquilo com a minha entrada. Mesmo que obstinado, traga tantas vezes dentro de mim, pensamentos e Invernos para estes locais que me acolhem é como regressar a casa onde o tempo se torna suave como um vinho envelhecido e saboreado no anoitecer cinzento e frio. Calor para a minha vontade de frio.

E de noite caminho por outras ruas mas não em solidão porque as sinto minhas. Parte da minha casa. Ruas  de onde me afastei por longas semanas mas que sempre habitaram os meus pensamentos. Onde regresso por outras palavras e melancolias, como se assim tivesse que suceder. Com as folhas e os ramos junto aos meus passos. 

Nos dias de cansaço deixo de me debater, gosto de me deitar nestas palavras como quem chega finalmente a um refugio seguro e consegue descansar. Uma estranha criatura vagueando dentro de uma mansão como se fosse sua. 

 

 

 

Ômega, diz-me o que sou.

Com os olhos que me conhecem nos meus dias cruzados entre a tua silhueta e a minha vontade de sair daqui. Diz-me desta saudade, que sistemática como Hefesto no seu labor, me vai castigando os dias e as noites. Diz-me onde está a virtude de subsistir, não viver, onde sei não pertencer. Estar tão cinicamente certo da palavra ausência como da raiva que me força a ficar. Ainda a ficar.

As tuas palavras são o absinto, ouves?

São ornamentos do meu medo. Ecos de feridas abertas todos os dias. Caminhos perdidos. Raízes apodrecidas. Animal que reza para que nada nos separe.

Miseravelmente, nada consegue essa separação. 

Não quero dormir. Agora não.

Ômega,  canta para mim.

 

 

Thy Light

....

Eu quero recordar-me vezes sem conta. Obsessivo. Compulsivo. Da luz na escuridão a rasgar os meus olhos demasiado claros para a suportar - ainda assim -  que se torna necessário para guardar algo precioso para mim. Porque não chegam apenas odores e gestos. Quero sentir o que sentes quando varres as cortinas da janela, e esplêndida, abres os vidros secos pelo sol da manhã. Aceitar, malicioso, antecipando, a luz a entrar insolente pelo quarto, rasgando, vencedora, a escuridão que insiste em ficar, esquecendo-se que já não é noite - que deve  recolher-se nos meus recantos da memória.

É neste jogo de luz e escuro que me perco, num persistente exercício de futilidade, imaginando conseguir recordar-te assim: como se me fosse dado o privilegio de esticar o tempo um pouco mais e antes daqueles instantes, que vão encharcar tudo de uma luz tão brilhante.  Engano meu,  é claro.

Sei que, mais uma vez entre tantas outras vezes, voltarei a perder-me no caminho, naquela paixão que tenta a memória, para que se escrevam marcas, traços para um regresso. Voltar com passos atrás. Repetir pensamentos de impotência porque fico mudo.

Fico sempre incapaz. Mudo e silencioso.

E não devia.

Não devia.

 

A promessa cumprida é salvação. É uma casa e um porto que abriga o cínico desiludido. É como uma porta estreita, que por vezes boceja enfastiada, deixando que entre o descrente. E porque depressa se aborrecem, as promessas são aquele estranho, quase impossível canto sussurrado, encantando a criança ao sono, pelos sábios lábios de quem conhece a arte do embalo.

São muitos os que prometem. Poucos os que cumprem e ficam. Menos ainda, quem entrega a sua mão sem medo de monstros. Talvez porque existem promessas que são pactos forjados, tecidos por certezas que sempre me deixaram aquele deleite quase blasfemo, estranho, de libertação. Uma forma de iluminação que me força a vergar - a dobrar os joelhos rendido.

Sei muito de promessas não cumpridas nas noites em que os caminhos são percorridos sem os sons da certeza. Da mesa vazia na escuridão e de quantos batimentos são precisos para esquecer o prometido. Sei do silenciar de mais um discurso e da ausência apenas real porque os pensamentos nunca me atraiçoaram. Do sabor agreste que cobre a mais pequena das desilusões com melodias, notas, que vão assassinando lentamente. E é possível escutar o rasgar de mais uma promessa não cumprida. E é necessário espaço para mais uma cicatriz.

Reconhecer uma promessa verdadeira é sentir-lhe o sabor, a doce tentação de baixar os braços, por instantes seguir os seus caminhos e encantos. Chegar e sentir o caldo reconfortante de uma voz. Um odor. Um respirar. Uma palavra suave e apenas escutada por mim.

Talvez seja tão belo porque é raro. Talvez porque eu seja demasiado inacabado. Incapaz de me guiar por tantos sinais e luzes que me assustam.

Ou talvez porque gosto de prometer e cumprir. 

Até ao fim.

 

(999)

Não saber porque passa o tempo é uma das mais desconfortáveis piadas da nossa existência. Deixar que esse mesmo tempo decorra, esvaindo-se entre banalidades, comodamente arrumadas como vivências úteis, necessárias, é mais do que uma piada: é um engano arbitrariamente crasso. 

É assustadora a incapacidade que permite que se esgotem os meses com a displicência do envelhecimento de quem percorreu uma vida inteira sem um arquejar, um ténue, que seja, vislumbrar de algo verdadeiramente excepcional, e mesmo assim conceba o paradoxo da ilusão de que algo realmente genuíno conseguiu para si. Será sempre um eterno desconforto para mim, se conseguir chegar aos anos de velhice mais profunda, concluir que o tempo se foi esgotando numa miserável epopeia de vida - uma vida inteira sem atingir qualquer altitude que me permita morrer sem quaisquer remorsos.

Creio que é exactamente disso que se trata: resistir aos dias de absurda negligência em nome de outras "causas mais nobres"; chegar ao fim dos anos com a  satisfação de algo pessoal atingido,  rebatendo todos os que, e eu observo isso todos os dias,  começam a observar o entardecer da vida amargamente cientes da mediocridade dos seus anos.

Eu recuso-me a essa entrega. Insisto naquele maquinar que persegue sonhos e viagens. Viajo tanto! Tentando absorver tudo e não deixar nada por fazer. Mesmo sabendo que muitos se reconheceriam infelizes junto a mim.

Mas para mim, mesmo quando quebro exausto, é não sentir um pingo de hesitação que me deixa realmente completo. 

Quero, um dia, chegar ao meu entardecer e não lamentar secreta e amarguradamente ter sobrevoado os anos sem trazer nada comigo quando chega a hora de pousar. Poder contemplar o passado sem o ódio rancoroso de quem falhou por completo.

Principalmente: sentir o que outros nunca sentiram; não carregar aos meus ombros o fardo da frustração e da resignação por uma existência mal vivida - sabendo que esta resignação é um inferno muito pessoal de imensas criaturas.

 

 

 

Lembro-me perfeitamente quando visitei a Rússia pela primeira vez e o esmagamento que senti quando testemunhei todo o portento deste coro russo e a magnitude desta obra.

Já mais do que uma vez voltei a assistir e sempre, sempre permanece uma opressiva sensação de esmagamento e espanto.

Na capacidade de criar música sem instrumentos.

No espanto  de um ateu, capaz de se deslumbrar com a espiritualidade monumental.

E imaginar que na inspiração de Tchaikovsky reside a mente de um Deus.

Sabendo que  não existe nação como a Russa para criar hinos.

"All for the love of thee"

Esta devia ser a primeira visão da nossa existência. O principio de tudo. Muito antes de qualquer outro conhecimento. Mesmo antes do reconhecimento da palavra "mãe" ou "pai". No inicio, nos primeiros suspiros de ar já deveriam ser claros os primeiros impulsos, a paixão pela arte de fugir.

Não a arte da cobardia e do medo. Antes a arte de voltar as costas de olhos postos num outro horizonte distante, demasiado longe para outros.

Recordo-me perfeitamente das palavras - " A verdadeira libertação só vai realmente existir quando pura e simplesmente deixares de te importar com o que os outros dizem. Quando tudo se tornar tão relativo na tua mente, que apenas e só o que te interessar ficará. Tudo o resto será lixo inútil."

Recordo-me enquanto vou bebendo delas, deixando que dancem aqui mesmo e em frente aos meus olhos. E nada se torna mais poeticamente justo do que este paroxismo - quase estertor que antecede a decisão pessoal de matar algo enquanto saímos -,  esta violenta capacidade de retirar peso dos ombros com a destreza dos que sabem realmente o que fica. E o que fica não é mais do mesmo. Não é o nada. Fica o que importa.

E pouco importa que esta seja uma arte maldita para os que não lhe reconhecem as virtudes da pacificação. 

Mais importa a quem nela encontra a companhia e a possibilidade de continuar o caminho por outras estradas.

 

 

 

Primeiro o café, como uma poção de magia negra. Muito quente e forte. Escuro como as noites do Norte. O aroma enche a sala e agita os meus sentidos - entre a euforia que cresce em mim e a sensação que se torna vizinha à flor da pele fria.

Liquido negro e espesso, pleno no seu convite à paciência nas manhãs onde tudo é gelo e o frio glaciar; a escaldar, aquecendo a memória e o corpo. Despertando a consciência enquanto vai abrindo de par em par as portas de certos sentimentos - quase mortos e em necessidade de despertar para que se afastem ideias impacientes.

A seguir ...

Depois poisa a larga travessa de porcelana branca. Ali. Junto à chávena de barro escuro consagrada pelo liquido negro.

Os biscoitos são largos. Uns mais escuros e outros mais claros. De chocolate também negro. Mesclado com morangos silvestres, doces como mel virgem e mergulhados na canela de um cheiro tão presente que quase obriga a um salivar obsceno. 

São os meus preferidos.

Porque me recordam outros dias onde nada perturbava o meu pensamento e certeza de que tudo seria como eu ansiava: perfeito.

Gosto de os morder  frios para combater o calor do café. E sempre detestei doces quentes, principalmente estes. E sei o que irá suceder quando os mordo. Sei da serena certeza de que se irão desfazer na minha língua embora brinquem com a visão,  simulando dureza. Conheço-lhes a textura macia e divina, impregnada nas minhas recordações. Conheço-lhe os caminhos e como conseguem tornar certas manhãs, juntos a um café coado na perfeição, numa suprema arte de capacidade humana.

Alguém me disse antes que estas são as mais do perfeitas condições para alimentar as virtudes de uma certa pacificação.

Creio que não. São antes as mais do que perfeitas condições para alimentar a minha necessidade de imaginar pertencer a algo. Que naquele ardor a escorrer pela garganta, naquele saborear e cheiro quase proibidos, consigo agarrar algo que me  pertence - principalmente, algo que consigo manter intacto nas memórias que, com um talento maquinal, insisto em destruir. 

É nessas manhãs quando o sol não se atreve a brilhar, quando tu, ela, eles, elas, mal se atrevem a sair da cama quente, enquanto me deixo encantar por sabores e cheiros e memórias, quando olho para a neve lá fora, que gosto de aquecer este pequeno pensamento ...

Se calhar, de tudo o que aparentemente tenho, algo disso é realmente meu.

 

 

Já foi mais fácil a despedida. Muito mais simples quando tudo parecia girar apenas na minha própria órbita. Bastava olhar em frente e simplesmente imaginar o afastamento. Conseguia permanecer naquele estado de ignorância, e descansar o pensamento num quase sereno torpor velado pelo absinto do meu próprio direito ao isolamento.

Sim. Era bem mais fácil dizer adeus.

E não porque brilhe em mim a glória da descoberta dos segredos deste mundo - as portas da muralha não estão abertas, e assim, um furor de gente não chega para me abraçar e embalar gentilmente.

Mas, porque afinal parece que estas coisas não nascem do éter, antes caminham cuidadosas e silenciosas, creio que são emoções que se revelam por pequenas incisões na alma - mesmo no mais profundo egoísta. Cínico.

Umas mais extensas. Outras bem mais curtas. Algumas mais antigas. E também mais recentes. Mas todas lacerantes e profundas, como permanecendo vivas e respirando em mim. Ao ponto de troçarem do pragmatismo, enquanto vão adormecendo na obstinação; enquanto vão semeando o pressentimento que esmaga quem se despede.

Para mim ficará sempre o sabor intenso e desperto de quem prova algo raro e de estranha alquimia. Em pequenas porções, e para que resista ao desvanecer do tempo e permaneça comigo - alimento e calor para outras criaturas.

Agora, dizer adeus será tão difícil como sussurrar uma verdade inatacável ao ouvido. 

Mesmo que para trás fique o silêncio e a escuridão de um lugar como cenotáfio de memórias.

 

 




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