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Eu costumava despejar os sentimentos; deixava desencadear as emoções em torrentes maciças de sensações. Nesta urgência implacável de manifestação, recordo plenamente, o que restava era pouco. Ou nada. Um vazio terrível; uma desilusão palpável aos mais pequenos detalhes. Uma destituição de preenchimento que sempre associei ao facto de exigir demasiado e detestar guardar dentro de mim os pequenos problemas de quem não gosta de ficar cheio de intenções. E emoções.

 

Sempre pensei dizer o que sinto no preciso momento. Incapaz de resguardar o desgaste que causa o silenciar que tantas e tantas vezes é necessário. Mortificam-se outros. Também morremos, claro, muito lentamente. Mas assim seriam as coordenadas de quem acha a verdade como absoluta. Essencial.

 

Agora.

 

Creio que existem, algures neste universo, leis que se divertem na criação de modelos de flexão. Estou convicto que existem momentos em que tudo o que pensamos saber, tão carinhosamente aninhados na nossa alma como ponteiros de orientação para a vida ( que estranha piada, esta!), se desarranja por culpa de uma outra pessoa. Existe esta absurda noção de catástrofe com sabor a redenção quando nos é demonstrado com precisão sinistramente cirúrgica, que existem outros caminhos a trilhar muito mais longe. 

 

O que mais me perturba é a noção de aprender de novo. Como se o que antes foi devorado e aceite como alimento se tornasse inútil; um reflexo pálido da necessidade extrema e por demais essencial de silêncios em vez de tempestades; uma demonstração das virtudes de reter o que muitas vezes deveria ser dito de imediato.

 

Silenciar que me foi revelado por outra criatura como imposição e aprendizagem. Porque afinal, não será de voltar a aprender que se trata? Que a minha  racionalidade, sempre tão feliz no postulado de exame até reduzir tudo a pequenos detalhes, se recolheria neste portento intimo que se torna o fechar a torneira da torrente e deixar sair o que deve sair em pequenas rajadas constantes. Economia pura e dura.

 

Nunca seria um candidato a prémios de paz. Até porque o meu egoísmo não deixa que outros consigam os feitos desta criatura. Creio que ficaria louco se tal eu permitisse. Mas entre estes ódios que são os meus, aprendi com ela, a lei de acorrentar cães raivosos cujo rosnar é música para estes ouvidos. 

 

Anoto como aluno paciente a virtude da paciência. A beleza do vazio que será colorida com a sua presença. O respirar da saudade que sempre me pareceu amarga revela-se agora como um tónico de lembranças para que algo se repita. Os perfumes familiares e ruídos de quem se move como um felino. As palavras ditas e escritas com intenção de rasgar, abrir caminhos que não os meus.

 

Tudo me assombra nestas emoções. Deixar que outro ser estenda a mão e aponte; que é também racional baixar os braços e escutar. Que o silêncio fala. Fala volumes. Mesmo que se tratem de sussurros e pequenas palavras que a minha alma tanto necessita. Mesmo que sejam o respirar com outra pessoa.

 

 

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Minha cara ( creio ter a distinção de ousar pronunciar tais palavras sem que me acuse de assédio), urge que lhe conceda algum do meu precioso tempo. Tal, porque dias e horas são um luxo que parece existir em demasia na sua existência, não seria necessário se tivesse lido de forma pragmática e racional o que escrevi sobre o assunto noutro local. A sua insistência, bem como a de algumas outras almas justiceiras, justifica isolamento e um último esclarecimento neste outro local que pretendo encerrar brevemente e que, estranhamente e apesar do meu desvelo para que permaneça abaixo de certas atmosferas, farejou.

 

Porque razão lhe concedo, logo a si!, a benesse? Porque sei que ficará cristalino para a cara e quem gosta de modo servil se acomodar às suas ideias. Nada mais. Mesmo repetindo preceitos que mais objectivos não poderiam ser.

 

Atente:

 

O famoso anúncio não belisca um centímetro da minha masculinidade. Porque tenho orgulho nessa característica, no que tem feito por mim e no que irá fazer. Não espero que o entenda. Não você. Mas não significa que seja cego, surdo ou mudo em relação ao que o mesmo pretende afirmar.  Não significa a ausência de verdade no facto de ter suscitado reacções frustradas de homens rancorosos com o sexo oposto; disfarçar a frustração pela sistemática falta de atenção das senhoras, misoginia amargurada e incapacidade de aceitar direitos.

 

Tudo isso.

 

Creio, devo realmente, voltar a afirmar-lhe,  facto que parece suscitar-lhe nojo, que me orgulho de ser portador de um pénis. Algo, segundo me foi dito, estranhamente ausente no seu companheiro? Talvez porque seja a condição canina a sua preferência e deferência? 

 

Masculinidade é atributo e característica, entre muito mais. Não é apenas conceito de macho de cobertura, sempre pronto a demonstrações de machismo autista. 

 

O anúncio que tanto a empolgou a si e demais acólitos e que falhou redundantemente no seu objectivo não serviu sequer para me irritar. Despertou apenas bocejos de contemplação  que manifestei no que antes escrevi sonhando que o pragmatismo e a racionalidade alimentassem a luz de quem lia a escrita em desabafo.  

 

Mas assim não me foi concedido. Teimosamente insultado pretendo, antes me  obrigo a tal, por meios mais simplistas e directos emitir uma opinião com exactamente os mesmos créditos do que antes escrevi; apenas de pena mais leve e escorrida.

 

a) É penoso em demasia soletrar de forma coerente a amálgama de imbecilidades abstractas que navegam neste anúncio. O fardo impossível que significa enumerar a cretinice ideológica e propaganda estrábica de meias verdades, inconsistências e generalização. Muito mais penosa do que ter de sofrer o embaraço de quem recebe tal dádiva de inutilidade na bandeja de uma firma que fabrica lâminas para homens. Para criaturas como eu! Cheias de ódio, rancor e hormonas!

 

b) Não deveria ser necessário voltar a repetir o que já sabe. Até porque me conhece bem, que estou habituado a batalhas em terrenos de ideologia escassa ou ermos de confusão onde todos gritam e nenhum acerta. O que a merda do seu anúncio faz é colocar todos os homens na mesma forca. Generaliza atribuindo defeitos ao todo. Não somos todos iguais! Não agimos todos da mesma maneira ou pensamos como reflexos. Eu não aceito ser responsabilizado pelo comportamento de outro homem. O que se tenta é apelar ao direito de indignação contra todos!

Um erro deplorável e inútil porque mentiroso.

 

c) Recuso-me a aceitar retórica de comportamento das patas de uma multinacional que ainda testa produtos em animais indefesos e explora mão-de-obra infantil em países esfomeados. Não aceito pregação sobre respeito perante uma mulher. Porque das muito poucas pessoas que respeito e quero proteger a todo o custo as duas principais são mulheres. Pouco me interessa o alarve de uma corporação que ousa tentar doutrinar o meu respeito quando se deveria remeter ao acto de lamber a ponta das minhas botas. Em submissão.

 

d) A cara sabe como se torna absurda a ideia de que todos os homens são desde logo potenciais violadores, misóginos e manipuladores? A profunda estupidez que brilha no absurdo de atribuir o rótulo de "bullie", glutão e bêbado a todos? Claro que assim não parece. Porque isso seria forçar a sua sensatez a reconhecer o mesmo teor vicioso ao sexo feminino. Facto que não lhe convém. Não hoje.

 

e) O paraíso está neste anunciar de novas ideias. Admito. A terra do leite e do mel que é a qualidade e arte do piropo dirigido a uma pobre infeliz. Coisa que eu nunca fiz ou farei. Coisa que a maioria dos homens já não faz - muito para seu mal disfarçado desgosto. Aparentemente. 

 

E como é que conseguimos viver com a angustia do velho que rindo apalpa as nádegas de senhora lá de casa? Como é biltre tamanha insensatez; mesmo que eu nunca o tenha feito e, uma vez mais, a grande maioria dos machos também não!

 

Tudo pequenas gemas num anúncio a abarrotar de inconsistências.

 

f) Este moral ao idiotismo autista de feminismo vesgo de terceira geração é preconceituoso e imbecil. Mesmo passível de conter pontos onde aceito a necessidade de mudança explode nas mãos de um bando de cretinos que assume o todo como igual. E pensa que pode ditar regras longe das três lâminas e dos pelos da barba. 

 

A presunção que atribui a todos os que possuem um phallus  entre as pernas a necessidade de sexo constante, festas depravadas e acessos de pancadaria é por demais capaz de me levar ao riso e às lágrimas! Tão bom!

 

Creio que vai leve demais a minha pena. Apenas um pouco mais que necessita de correcção.

 

Agrada-me quando me chama extremista nazi. Sinceramente. Porque reconhece este meu amor ao individualismo. Porque sabe deste meu ódio de estimação pelo seu amado  Foucault  e o fascínio que a cara tem com a foice e o martelo. Agrada-me que entenda os meus instintos mais íntimos ao lado do seu ideal pós-moderno. Agrada-me.

 

Os meus olhos verdes não me transformam num soldado ariano. A minha massa corporal não cria em mim um violador ou macho de cobertura. Os meus pensamentos são meus e apenas meus. Aceito as diferenças entre sexos porque aceito a biologia. Mas aceito a necessidade de todo que apenas a mulher me pode dar. Aceito que somos diferentes mas acredito piamente na igualdade de oportunidades. Para todos. Rejeito a atribuição de privilégios por complexos de culpa ou pressão histérica. 

 

Nunca tive qualquer dificuldade em aceitar a superioridade de uma mulher quando a testemunhei. E já o testemunhei mais vezes do que consigo contar. Mas não aceito a sua choradeira e vitimar. A minha cara não me parece ser capaz de provar o contrário.

 

A minha masculinidade é tóxica? Creio que lhe daria gosto saber. Não é?

 

Prazer.

 

 

 

 

 

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" Aos discordantes ..."

 

 

É com revigorado contentamento que renasce em mim a centelha da esperança na raça humana. Essa proverbial casta de valores assentes na razão, que deveria ser imensa, faustosa nos seus predicados de evolução. 

 

Sinto uma necessidade imperiosa, doce vontade de pernoitar no sedoso ventre de alabastro de todos aqueles que desejam o mesmo no final de todos os anos. Creio ser virtuoso até da minha fraca vontade, retirar o meu pobre chapéu da consciência, aos sistemáticos críticos do consumo natalício e que, por obra de uma vontade que os devora, terminam a noite em festa e barrigas plenas de gases. Não é sua culpa, deus que nos livre! Mas é preciso tal esforço - pelas crianças que adoram!

 

Aconchego este corpo pecador bem como este pensamento que teima em olhar grandes grupos como massa do mesmo tacho onde se pensa, deseja e festeja exactamente na mesma prosa e verso. Vacilo até perante o expoente de poder que é o desejar as mesmas coisas de outrora, sempre as mesmas, mastigando passas. Em cima de uma cadeira ...

 

Venerável é a raça de gente que promete e não cumpre. Perder peso. Poupar mais. Estar atenta e deixar que entre o sol no nosso mundo, que de escuridão já basta.

 

Sim.

 

Seria importante para criaturas danadas como eu eliminar o meu descontente pensar, mantendo esta centelha revigorante e selvagem da esperança se por fim conseguisse parar de ler e ouvir tacadas de inconsciente ignorância, que são decalcadas servilmente de um qualquer antro da rede social.

 

Imitar é uma arte antiga, batida e por vezes supera até o mestre. Mas repetir até ao mais pequeno dos batimentos ignorantes a mantra do que se lê em "posts" recheados de rancor e má informação é denegrir em demasia a arte de imitar.

 

Claro que me sinto uma vil criatura neste mar de emoções ignorantes. Como não havia de me sentir? Sou homem. Sou branco. Desde logo privilegiado. Tudo o que consegui foi por exploração. Pisando e gozando. Racista. Desde já. 

 

Deus que me afundo!

 

Esta ignorância caseira, lida sempre nas mesmas fontes e sem esforço para olhar o outro ponto, calcina a minha vontade. Disparam-se grunhidos sem deixar o conforto e bem estar da casa. Proclama-se o direito à denúncia sem aceitar o óbvio; as suas próprias existências são a miséria da dependência visual, da imitação macaca e da memória dos 3 segundos.

 

Repete-se sempre a mesma receita e bálsamo: discurso livre e liberdade de pensamento. Mas não para quem discorde dos seus pontos de vista. Enquanto se vão devorando os doces contrariados mas porque é tradição e desejando boas festas e um ano novo mais próspero e de igualdade, seria de bom tom para almas perdidas como a minha que finalmente se apagasse a utopia de que um dia seremos todos iguais e felizes.

 

Só por esta noção ressaltam as minhas entranhas. Todos iguais.

 

No mês de Dezembro. Nos eternos votos nunca cumpridos.

 

Nas mesmas ideias copiadas. Na assimetria retardada dos críticos que nunca experimentaram realmente nada.

 

 

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Opia

 

 

A mais rara das preciosidades começa diminuta; frágil ao extremo do embaraço. Estranhamente, quase por admissão de cinismo cruel e falho de emoções, não raras vezes algo conspira para que se condenem certas gemas preciosas a muito mais do que pelejar contra incapacidades e fragilidades que nada mais são do que um iniciar de testamento vital.

 

Imperfeições.

 

Nascidas em nós. Logo após os primeiros sopros, soltos entre as lágrimas dos momentos que iniciam a existência.

 

Algo conspira, de facto. Para que nos primeiros anos o que é precioso, sem que seja humanamente possível aquilatar o seu brilho raro, subsista num limbo bizarro de dor e desilusão e onde cada hora que se esgota é vitoriosa. É como se a Natureza revelasse  arrependimento da sua criação e, num desvairo ciumento, quisesse macular uma obra que é única.

 

Por isto lhe guardo um profundo rancor. Um ódio insubmisso.

 

Mas a sobrevivência do que é raro e precioso é estranhamente virtuoso. Talvez uma bofetada sonora e dolorosa na face da sua criadora. Talvez para que seja possível ao olhar de um descrente como eu finalmente entender que as preciosidades inestimáveis crescem. Alongam-se ainda mais belas. Para meu espanto.

 

 

Cada nesga da minha submissão tem sido arrancada a frio por uma preciosidade sobrevivente das escarpas mais dolorosas. Em cada fraquejar meu, pessoal, que me assassina silenciosamente, se reflecte um rosto que necessito se mantenha a brilhar e de olhos imensos; para que eu consiga manter a memória da sua expressão passada agrilhoada na masmorra mais profunda e escura.

 

Creio que perante o que me é demasiado precioso me recuso a lutar. Ser realmente o primeiro a juntar o joelho com a terra e baixar a cabeça. Deixar que pedaços meus sejam arrancados e talvez usados como amuletos. 

 

Ou talvez seja uma revelação e admissão de luz que brilha no escuro.

 

Talvez. Mas pouco me importa.

 

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Acho-a Luciferina. Passível de todos os meus simbolismos. Capaz de encerrar em si  os meus sentimentos mais estranhos e negros.

 

Anoto.

 

As descrições nunca são um campo lavrado, seguro. Pelo menos as minhas descrições. Revelam-se rodopios em volta de uma criatura que, pela mera existência, me fascina esfomeado. Não me é possível maior rigor porque se encarrega de sorver qualquer espasmo meu; qualquer chama acessa é instrumento para seu fascínio.

 

Pressinto.

 

Apenas os virtuosos parecem conhecer todos os sintomas desta emoção. A mim resvala, cilíndrica. Sinto-me absurdamente perdido. E ainda assim, extasiado nesta opressão. Creio que os de virtude, onde tudo parece assentar em tronos de poemas feitos e mares serenos, nada sabem de fogos primordiais. De como são brasas derretendo a vontade e reclamando almas. Mesmo em pleno breu.

 

Silenciados...

 

... os verbos. Permanecem gestos. Vistos por olhos destinados a brilhar naquele fulgor corpóreo, impossível. Silenciado porque apenas no silêncio consigo verdadeiramente encontrar deleite nos braços e palavras que nunca serão minhas.

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(999)

 

 

Eu já vi a tempestade a formar-se nos seus olhos. Nada semelhante aos ventos e chuvas que em tantas luas atravessam as minhas ideias. Nem sequer nos sintomas imprevistos. 

 

Em mim cresce uma fúria tão venenosa que seca e envenena se não for contida. O verde dos olhos desce quase ao grau zero nas pálpebras que se vão cerrando.

 

Nela, os olhos negros crescem. E inevitavelmente, uma grossa veia nasce na sua fronte. Um relâmpago a explodir entre os olhos da tempestade. Eu rosno. Ela parece silvar. E ainda assim, a sua expressão não se distorce. Permanece temível naquela beleza quase, quase inexplicável para mim. Outra criatura deveria afastar-se cautelosamente. Eu respiro aquele furor. De sentidos em alerta e excitados.

 

Em mim a tempestade permanece dias. Bastas vezes aquietada apenas por ela. Nela parece esfumar-se. Desvanecer-se ao seu gosto.

 

E eu, apenas eu consigo sentir quando a tormenta começa a desfazer-se num último registo de beleza divina: os olhos pacificam. O relâmpago esmorece. Em esquivos milésimos de segundo a ponta da sua língua viaja pelos lábios num gesto cansado e intensamente frágil.

 

Uso então, toda a massa do meu corpo para a proteger. Também eu absortamente frágil e cansado.

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 (999)

 

...

 

Nestas últimas semanas talvez eu tenha sido um pouco mais para alguém. Assim quero crer. Talvez esteja a ser demasiado convicto, mas alguém, mais do que qualquer outra pessoa, conhece a minha teimosia e incapacidade de ceder sem combate. O veneno em que se tornam as minhas convicções.

 

Tentei que, em silêncio, conseguisse escutar o assobio do vento norte quando mergulha entre o gelo das montanhas mais altas que os seus olhos imensos já viram; há algo em si que não deixa adormecer a única noção de toque divino que consigo em toda a minha descrença, manter acesso. Uma pequena réstia de fantasia.

 

Mentiria de forma cruel se omitisse o quanto me destroçam as dúvidas sobre o seu futuro. Porém e enquanto escutava a música do seu rir no momento em que mergulhava no lago gelado ou entre o conforto ameno das palavras preocupadas, não me é possível riscar uma estranha emoção; como se naquele rosto cristalino e intocado fosse possível, palpável, pensar na eternidade; entre o roçar das toalhas que me limpam o corpo pelas pequenas mãos apressadas. É primordial para criaturas como eu trancar momentos assim: para que sejam eternos.

 

Reconheço-a igual a mim. Verdadeiramente mais perfeita. Essencial para quem a rodeia. Mas também igual a mim. Caminhante sem desejar um destino; apenas um porto para descanso. Uma fome voraz de sentir, que nos diverte secretamente e assusta quem se conforta em mais um dia de calor caseiro. Creio que me foi retirado um pedaço de alma em seu nome. Mas nunca me arrependerei.

 

E quando a noite se deitou ao nosso lado os ventos do norte conspiravam medos que apenas eu escutei. Enquanto dormia profundamente em cima do meu ombro, coberta pelo meu mais espesso casaco, mantive o fogo acesso e o calor que torna a sua face rosada. Senti ser um qualquer deus, porque naqueles momentos de cuidado vigilante sei que mesmo a morte se afastaria atemorizada. Envergonhada.

 

E uma vez mais, metodicamente previsível, observei a aurora a esbracejar. Uma vez mais o sono morreu em mim.

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 Sou uma criatura absolutamente convicta da importância dos sentidos. Quanto mais eu conheço pessoas mais me deprimo pela perda de uma faculdade como a observação, o cheiro, ouvir e o saborear. Abusa-se do toque. Apenas isso.

 

Creio ser irritantemente observador. Pequenos pormenores, tantas vezes executados todos os dias, são uma fonte de precisão matemática para os meus olhos. Gestos e expressões executados sem pensamento revestem-se de preciosidades paradigmáticas para vampiros observadores.

 

O erguer de um corpo do outro lado da cama banhado pela luz exterior dos dias cinzentos; as mãos delicadas levadas atrás apanham os cabelos longos e fartos, como se propositado para que as costas sejam admiradas em todas a suas saliências que se precipitam numa cintura assassina; antes de se erguer da cama, sempre e invariavelmente sem ruído porque criaturas existem que são panteras em excelência, provoca o espasmo de adrenalina máximo, rodando o pescoço branco e esguio, emitindo estalidos apenas escutados por ouvidos privilegiados. Nada se compara a este momento. Eu não teria remorsos e mataria por este momento apenas.

 

Tudo se revela compulsivo para os meus olhos admirados. A capacidade felina de movimento sem ruídos desnecessários, como se o chão não fosse seu. O cheiro a ervas nórdicas que resistentes crescem entre os blocos de gelo e que lembram os raros dias de sol, emana do cabelo lavado, provoca um ardor requintado nas narinas. Existem personificações que muito bem poderiam justificar existências onde a criação de mitos foi beber inspiração. Equinócios de energia bruta e perfeitamente capazes de ferir bestas rudes como eu.

 

Os esboços criados por criaturas passionalmente vorazes por atmosferas, experimentados na alquimia de fogo primário e franjas normalmente ignoradas pelo olhar comum, não conseguem prevenir o portento de observar na distância de um braço esticado, um corpo absurdamente ágil apanhando um copo de vidro em pleno ar e antes que este rebente em mil farpas no chão, sem que uma pinga de líquido precioso se derrame; que termine este rasgar de sentidos com o respectivo depositar do objecto em cima da mesa, de novo, com um ínfimo som, enquanto vai inconscientemente, atirando um grosso fio de cabelo para a nuca. Neste preciso momento, orgástico e aterrador para criaturas de sentidos apurados, as leis da física são ao mais baixo possível. Zero absoluto. Um fluir estético e inconsciente desta envergadura carboniza de maneira impiedosa qualquer outra forma de arte dançante. É como se eu fosse um grande urso impotente perante a destreza desmoralizante de uma pantera que se revela desconhecedora do martírio causado nos meus sentidos.

 

Uma arte aprimorada por quem não tenta destruir muros forjados na solidão e desconfiança de anos. Antes prefere saltar por cima destes. Que conhece a cor do individualista e mesmo assim prefere vestir as minhas camisolas, tirando prazer em sentir nelas o meu cheiro. Uma absoluta invasora que sistematicamente usa os meus óculos escuros preferidos, troca o borrifo do seu perfume pelo meu e impunemente prefere beber pelo meu copo e comer do meu prato, enquanto se senta em cima das minhas pernas.

 

São demasiadas as vezes que recolho as minhas mãos, acho-as demasiado grandes e agressivas, escondo braços grossos e densos, tremendo no receio de quebrar uma preciosidade única. Sei não existir outra assim no mundo. E eu não tenho espaço para muito mais.

 

 

 

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foto: Leff Jeffries

 

 

Se repararmos bem, existe quem viva para desafiar impossíveis. Quem transporte na expressão a falta de paz perante impossibilidades. Existem os que ouvem o segredar de impossibilidades de vida, tangências e silêncios forçados na expressão. Muitas são as vezes que, no agitar dos dias, se tornam diferentes; como barcos ancorados no seu próprio oceano. Mar dentro de sal e areia.

 

E não é possível esconder este desafio ao impossível. Não existe um rosto de olhares igual ao de quem sabe o que é uma impossibilidade e ainda assim mesmo, luta. Porque são sombras e também luz fina. Não apenas escuridão que oprime, mas recortes de luz ténue e silêncios de uma tirania distante. Tão longínqua como as lágrimas que não vertem.

 

Creio firmemente nas palavras dos rostos impossíveis, porque se dissolvem nas terras e nas casas. E camas. E rezas silenciosas. Quem mergulha profundamente na separação e esquecimento, mesmo assim afirmando "nunca esquecerei". 

 

E se repararmos bem, com olhos finos de atenção, poderemos ver claro como na luz do dia que o mundo, perante os que lutam contra o impossível, apenas continua a imitar os seus movimentos. Os seus gestos e eclipses são a fonte deste mundo. Por baixo de tudo, mesmo sem palavras que o justifiquem, seria insuportável para mim viver sem esta ideia de luta contra impossibilidades. De conseguir misturar-me com eles, nem que seja em pensamentos. 

 

Eu tenho essa certeza.

 

 

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 * Sintomas do Universo ... *

 

 

" O meu gato Morfeu é velho de muito ver. Sabe da vida dos pássaros e dos beirais onde descansam os seus ninhos; sabe dos insectos que escorrem pelos vidros da janela quando o sol ilumina de esguelha a casa; deixa que o olhar se perca no horizonte longe das estradas e ruas assombradas desde cedo; nada sabe de lógica milimétrica e muitas vezes parece não resistir a um bocejo, perante a minha ideia de que para os gatos o tempo parece ter parado; prefere a escuridão sem o peso do luto; sabe que dar demasiado irá alimentar o arrependimento, mas quando nos meus dias de céu carregado e sem chuva eu me canso de mim próprio, nunca parece arrepender-se de me ensinar a fugir do caminho da orfandade. "

 

 

" O outro gato chama-se Sigma e a alvura do seu pelo é aterradora. O silêncio companheiro deste gato cego de um olho é tão espesso que me deixa pálido; diante da minha previsibilidade reúne todos o momentos de ternura e protege-me como um abrigo de tempestades; existe nele algo semelhante a um livro a ser escrito com silêncios e paixões de tantos lugares; também parece não acreditar nas geometrias humanas e creio firmemente que me conhece demasiadamente bem; sabe como as ideias podem envelhecer dentro da cabeça bem mais depressa e antes de poderem ver o mundo e do confundir de segredos com identidades; sabe que confio demasiado na memória de cinzas, páginas em branco e cicatrizes, mas parece discordar em arrogância com a minha solidão. "

 

 

 

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