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O primeiro toque tem aquele sinal semelhante ao desespero mal contido. A reacção é uma electricidade que pulsa, remexe, cobre os sentidos com o manto mais sublime. Aquele primeiro, preciso instante, onde nada oscila, nada se inverte, tudo se alinha, tem o artefacto engenhoso que corrompe os homens em loucos dementes. Onde o pensamento não resiste, o discurso cede as veias ao toque entorpecido por subtilezas  estranhas, por vezes desconhecidas. Que se dobre o espírito na pele de seda enquanto se reclina o olhar em cheiros, momentos de promessas transformados em memórias de dor e prazer - esses pactos saborosamente infames.

Sombras.

Sempre.

Desejo ser petróleo iluminante para ver como arde esse primeiro toque. Queimar tudo ao meu redor. Esquecer o meu caminho para casa. Alimentar o fogo e queimar este mundo. E mesmo assim chamar por ti.

 

 

 

Às vezes deixo que os sentidos adormeçam nos braços da ilusão das promessas. Por vezes... Aceito a promessa de um "para sempre" com a mesma insensatez daqueles momentos em que algo apunhala a minha atenção, e deixo que se abram portas e janelas - entram os traços levemente deixados como partículas de luzes para um outro caminho, sinais, cores em cada esquina dos labirintos. 

Como se  fosse possível segredar algo para sempre num mundo que se aproxima do fim. Como se a eternidade não fosse tão vaga como as promessas de amor eterno. Como se aquele beijo final não pudesse ser o fim: o último.

Mas, às vezes, gosto dessa doce mistura, necessária para gravar na alma os sintomas de uma doença que promete algo para sempre, sem pensar nas ilusões, sem imaginar a maldição de cair do céu para o abismo profundo. Como se fossem naturais, ainda que dolorosas, as cicatrizes de mais uma queda.

Gosto. 

E, estranhamente,"para sempre", encerra portentos na alma -  consegue fazer vibrar emoções escondidas nas sombras. 

Tão doce, a ilusão da companhia eterna. Como o vinho mais saboroso que turva os sentidos. Como o último cigarro de um condenado antes de cair. 

 

O  verdadeiro fascínio dos erros é quando nos despertam outros caminhos, coisas novas, pensamentos diferentes, mudanças e estados de alma por vezes tão intensos que conseguem transformar algo que sonhávamos imutável. Às vezes, errar torna-se glorioso, extraordinário, de repente, uma certeza , mesmo que não seja perfeita.

Nos erros, muitas vezes, existem artes que conspiram para outros mundos que desconhecemos - talvez outros universos inimagináveis, magníficos, maravilhosamente sombrios, estupidamente desconhecidos a quem se apressa sem um olhar atento. E se errar é realmente humano talvez também sejam uma porta para a fragilidade da substância dos sonhos. 

Pode ser.

Senão, porque continuamos a cometer o erro de amar? Persistir nesse mundo bizarro e encharcado de sombras e dúvidas. Amar é horrível, creio eu. Deixa-me vulnerável e de peito aberto - significando que alguém conseguiu entrar e obliterar as minhas defesas, construidas com tanta perfeição, de armadura tão sólida, com uma sabedoria astuta, numa estúpida distracção minha, num dia  estúpido da minha estúpida vida, recebe um pedaço de mim. E nem sequer isso me foi pedido! Apenas entrou e recebeu. Apenas cometeu a simples imprudência de um beijo, um sorriso que rasgou a minha estúpida existência,  e a minha vida deixa de ser só minha.

Um erro grave e consentido porque esta coisa desperta-me paixões e fico refém. Deixo que entre e devore a minha escuridão tão escondida. E não quero nunca que chore por mim nesta escuridão, que simples frases consigam estilhaçar um outro coração que parece bater ao mesmo ritmo.

Estranho. Um erro estranho aceitar como verdadeiro, olhos com olhos, quando dizem que me amam. Porque me causa dor e sofrimento sentir a saudade de alguém como se me faltassem faculdades que sempre tive. Não é só doloroso na minha imaginação. Não é só no meu pensamento. Pode ser um erro que consegue esmagar a alma. Rasga de dentro para fora.

É um erro pago caro. Que me faz odiar esse amor. Mas que me faz sentir estranhamente extraordinário. Como se estivesse doente e não sei porquê.

 

Começa por ser um enigma silencioso envolto naquela inquietação de quem tenta balançar as emoções. Nas primeiras horas da madrugada, quando a claridade ainda não consegue rasgar a espessura dos céus negros,  despertam as paixões mais intensas. Viajo trezentos quilómetros de uma ponta a outra sem premeditação, entre questões sem resposta, numa  estranha forma de catarse, incapaz de permanecer imobilizado - traindo os sentidos num sonolento iludir.

Por vezes desperto num outro local como quem acaba de abrir os olhos, ainda mergulhado no espairecer de um sonho, e é a enorme caneca de café negro, a imensa fatia de pão escuro torrado com azeite e o mais saboroso queijo que me devolvem outra realidade. As horas são escorridas num limiar - ora inerte nos pensamentos batidos pelos ventos mais distantes ora desperto em frente ao rebentar das águas e incapaz de calcular as horas que se esfumam.

Este é o estado mais próximo do afastamento total. Uma quase paralisia silenciosa e consentida, entrançada numa qualquer ânsia que ainda desconheço nestes dias. Esta fome inesgotável que me arrasta os passos como se o mundo fosse acabar e com ele se desfaçam os meus sonhos. 

Já não procuro a justificação para esta vontade. Antes deixei que a minha rendição justificasse a sua melodia de sereia. 

E ela continua a segredar promessas quando regresso.

De novo adormecido no berço da distância que vai embalando o meu olhar e a minha paixão por espaço.

 

 

 

A necessidade extrema de revisitar locais onde me senti como presente - não um estranho - aparece muito bruscamente. De repente, e demasiadas vezes, violentamente. São por vezes as palavras que me assaltam os sentidos. Como um gesto comedido que consegue abrir uma porta. Às vezes isso basta - uma expressão que se transforma  em olhos que não são meus. 

Talvez seja uma obsessão minha. Talvez.

Mas é  quase mística a essência de quem consegue despertar esta emoção. Um estado de antecipação que consegue acordar em mim uma consciência que não me é estranha. Mesmo que não a consiga explicar não me é estranha. 

São palavras e sentimentos que me recordam a vontade de um dia regressar a onde sei estar o meu lar. A minha casa. Porque por vezes, pareço perder-me nos passos que vou dando em sua direcção. E a imagem desse local a que pertenço quase parece transformar-se em névoa, vou ficando cego. Então, talvez porque alguém desconhece a sua virtude de adormecer desesperos,  aparecem palavras como portentos, sentimentos de familiaridade, pequenos pedaços de luz onde me sinto estranhamente bem-vindo. Gestos amenos, por vezes difusos, como que embaraçados, mas  que pacificam a extensão das minhas ausências e incapacidade de permanecer quieto. Dentro destas passagens escritas permaneço como alguém cuja ausência foi sentida e agora tudo se tornará sereno e tranquilo com a minha entrada. Mesmo que obstinado, traga tantas vezes dentro de mim, pensamentos e Invernos para estes locais que me acolhem é como regressar a casa onde o tempo se torna suave como um vinho envelhecido e saboreado no anoitecer cinzento e frio. Calor para a minha vontade de frio.

E de noite caminho por outras ruas mas não em solidão porque as sinto minhas. Parte da minha casa. Ruas  de onde me afastei por longas semanas mas que sempre habitaram os meus pensamentos. Onde regresso por outras palavras e melancolias, como se assim tivesse que suceder. Com as folhas e os ramos junto aos meus passos. 

Nos dias de cansaço deixo de me debater, gosto de me deitar nestas palavras como quem chega finalmente a um refugio seguro e consegue descansar. Uma estranha criatura vagueando dentro de uma mansão como se fosse sua. 

 

 

 

Ômega, diz-me o que sou.

Com os olhos que me conhecem nos meus dias cruzados entre a tua silhueta e a minha vontade de sair daqui. Diz-me desta saudade, que sistemática como Hefesto no seu labor, me vai castigando os dias e as noites. Diz-me onde está a virtude de subsistir, não viver, onde sei não pertencer. Estar tão cinicamente certo da palavra ausência como da raiva que me força a ficar. Ainda a ficar.

As tuas palavras são o absinto, ouves?

São ornamentos do meu medo. Ecos de feridas abertas todos os dias. Caminhos perdidos. Raízes apodrecidas. Animal que reza para que nada nos separe.

Miseravelmente, nada consegue essa separação. 

Não quero dormir. Agora não.

Ômega,  canta para mim.

 

 

Thy Light

....

Eu quero recordar-me vezes sem conta. Obsessivo. Compulsivo. Da luz na escuridão a rasgar os meus olhos demasiado claros para a suportar - ainda assim -  que se torna necessário para guardar algo precioso para mim. Porque não chegam apenas odores e gestos. Quero sentir o que sentes quando varres as cortinas da janela, e esplêndida, abres os vidros secos pelo sol da manhã. Aceitar, malicioso, antecipando, a luz a entrar insolente pelo quarto, rasgando, vencedora, a escuridão que insiste em ficar, esquecendo-se que já não é noite - que deve  recolher-se nos meus recantos da memória.

É neste jogo de luz e escuro que me perco, num persistente exercício de futilidade, imaginando conseguir recordar-te assim: como se me fosse dado o privilegio de esticar o tempo um pouco mais e antes daqueles instantes, que vão encharcar tudo de uma luz tão brilhante.  Engano meu,  é claro.

Sei que, mais uma vez entre tantas outras vezes, voltarei a perder-me no caminho, naquela paixão que tenta a memória, para que se escrevam marcas, traços para um regresso. Voltar com passos atrás. Repetir pensamentos de impotência porque fico mudo.

Fico sempre incapaz. Mudo e silencioso.

E não devia.

Não devia.

 

A promessa cumprida é salvação. É uma casa e um porto que abriga o cínico desiludido. É como uma porta estreita, que por vezes boceja enfastiada, deixando que entre o descrente. E porque depressa se aborrecem, as promessas são aquele estranho, quase impossível canto sussurrado, encantando a criança ao sono, pelos sábios lábios de quem conhece a arte do embalo.

São muitos os que prometem. Poucos os que cumprem e ficam. Menos ainda, quem entrega a sua mão sem medo de monstros. Talvez porque existem promessas que são pactos forjados, tecidos por certezas que sempre me deixaram aquele deleite quase blasfemo, estranho, de libertação. Uma forma de iluminação que me força a vergar - a dobrar os joelhos rendido.

Sei muito de promessas não cumpridas nas noites em que os caminhos são percorridos sem os sons da certeza. Da mesa vazia na escuridão e de quantos batimentos são precisos para esquecer o prometido. Sei do silenciar de mais um discurso e da ausência apenas real porque os pensamentos nunca me atraiçoaram. Do sabor agreste que cobre a mais pequena das desilusões com melodias, notas, que vão assassinando lentamente. E é possível escutar o rasgar de mais uma promessa não cumprida. E é necessário espaço para mais uma cicatriz.

Reconhecer uma promessa verdadeira é sentir-lhe o sabor, a doce tentação de baixar os braços, por instantes seguir os seus caminhos e encantos. Chegar e sentir o caldo reconfortante de uma voz. Um odor. Um respirar. Uma palavra suave e apenas escutada por mim.

Talvez seja tão belo porque é raro. Talvez porque eu seja demasiado inacabado. Incapaz de me guiar por tantos sinais e luzes que me assustam.

Ou talvez porque gosto de prometer e cumprir. 

Até ao fim.

 

(999)

Não saber porque passa o tempo é uma das mais desconfortáveis piadas da nossa existência. Deixar que esse mesmo tempo decorra, esvaindo-se entre banalidades, comodamente arrumadas como vivências úteis, necessárias, é mais do que uma piada: é um engano arbitrariamente crasso. 

É assustadora a incapacidade que permite que se esgotem os meses com a displicência do envelhecimento de quem percorreu uma vida inteira sem um arquejar, um ténue, que seja, vislumbrar de algo verdadeiramente excepcional, e mesmo assim conceba o paradoxo da ilusão de que algo realmente genuíno conseguiu para si. Será sempre um eterno desconforto para mim, se conseguir chegar aos anos de velhice mais profunda, concluir que o tempo se foi esgotando numa miserável epopeia de vida - uma vida inteira sem atingir qualquer altitude que me permita morrer sem quaisquer remorsos.

Creio que é exactamente disso que se trata: resistir aos dias de absurda negligência em nome de outras "causas mais nobres"; chegar ao fim dos anos com a  satisfação de algo pessoal atingido,  rebatendo todos os que, e eu observo isso todos os dias,  começam a observar o entardecer da vida amargamente cientes da mediocridade dos seus anos.

Eu recuso-me a essa entrega. Insisto naquele maquinar que persegue sonhos e viagens. Viajo tanto! Tentando absorver tudo e não deixar nada por fazer. Mesmo sabendo que muitos se reconheceriam infelizes junto a mim.

Mas para mim, mesmo quando quebro exausto, é não sentir um pingo de hesitação que me deixa realmente completo. 

Quero, um dia, chegar ao meu entardecer e não lamentar secreta e amarguradamente ter sobrevoado os anos sem trazer nada comigo quando chega a hora de pousar. Poder contemplar o passado sem o ódio rancoroso de quem falhou por completo.

Principalmente: sentir o que outros nunca sentiram; não carregar aos meus ombros o fardo da frustração e da resignação por uma existência mal vivida - sabendo que esta resignação é um inferno muito pessoal de imensas criaturas.

 

 

 

Lembro-me perfeitamente quando visitei a Rússia pela primeira vez e o esmagamento que senti quando testemunhei todo o portento deste coro russo e a magnitude desta obra.

Já mais do que uma vez voltei a assistir e sempre, sempre permanece uma opressiva sensação de esmagamento e espanto.

Na capacidade de criar música sem instrumentos.

No espanto  de um ateu, capaz de se deslumbrar com a espiritualidade monumental.

E imaginar que na inspiração de Tchaikovsky reside a mente de um Deus.

Sabendo que  não existe nação como a Russa para criar hinos.






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