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Virtude, onde estás virtude?...

 

 

Adoro criaturas pacificas. Pacificadas com tudo e com todos. Com Deus. Com o nosso planeta azul. Com o astro-sol e noites de lua gorda. Habituadas e em paz com a sua pacificação.

 

O estado puro de paz que parece consumir criaturas pacificas acende aquele pequeno, minúsculo, candeeiro da consciência. Aquela lamparina intermitente que serve para afastar os enxames que insistem no fustigar das pobres almas tão em paz consigo próprias.

 

Seria lógico que outros não fossem portadores de tanto ódio e desprezo. Porque a razão e a lógica devem ser, por vezes, observadas sem os óculos aninhados na ponta do nariz caduco. A lógica e a razão floreadas na ideologia preconceituosa, placidamente disfarçada de crença em Deus e valores de preservação da vida humana. Sagrada vida. Não aceitação e muito menos permissão de morte escolhida com dignidade.

 

A criatura em paz consigo própria rejeita quem atropela o "seu" preservar e manutenção de agonias em camas sujas. Não questiona a "sua" opulência humanista mesmo quando são os outros a medir forças com os restos de existência indigna e piedosa. Porque são os outros. E não eles.

 

A criatura pacifica, virtuosamente protectora do direito à vida até ao mais ínfimo estertor, mesmo que em agonia e inutilidade, sente na face os pingos de uma morte aceite e escolhida por outros como uma ofensa ao terror de Deus. Que deveria ser o único a dar ou tirar. Senão o que poderia acontecer? Talvez o ateísmo branco da baleia de Ahab? Onde Deus se retirou para que o espaço fique vazio.

 

Então se o sagrado não importa importam as ideologias políticas de manutenção existencial. Desculpas e desespero de causa vestidas de dramatismo pacifico e irmão. A tirania da ética que dita as virtudes da escolha. Mas da maioria. Não do individuo.

 

Abençoados sejam.

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Cantico della dea

 

 (999)

 

São estranhos, certos fogos que nos consomem. Rapaces no seu sossego escondido, necessitam, imploram por alimento. Para alguns são uma mãe serena em dias mais escuros. Um ventre de alabastro onde se repousam sonhos e descansam preces silenciosas. É possível que se viaje também entre labirintos e compassos, mas o que consome arde sem ruído. É distância.

 

Outros são fogos incandescentes, fogueiras de São Vito que transformam a alquimia das almas. Inspiram o espaço onde faltam deuses, encharcando-o no ópio dos estados d´alma; é música quando expirada para pacificar a dor e uma soberana liberdade de si para si. Pessoal e supremamente egoísta.

 

Os animais mais vitais conhecem estes fogos. Nem sempre ardem chamados pelas chamas. Muitas são as vezes em que é a paixão a alimentar o mais tenebroso dos fogos. São a mescalina turva e doce dos desejos mais negros. Palavras, gestos e expressões que apenas servem o propósito sussurrado da fragilidade envelhecida.

 

Ou fogos de consumo tão imenso que permanecem. Não se apagam. Deslumbram o juízo mais escuro. É com estes arquétipos que se procuram sonhos e vozes. E ainda que fugazes, são o espanto das noites de desejo mal dormido. Revelam-se em impossibilidades e crenças sempre acesas de utopia.

 

 

 

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 (999)

 

 

As noites são muitas vezes encharcadas nas pequenas maravilhas, atiradas como alimento aos seus devotos servos. As minhas noites são de pouco sono. Gosto de deixar entrar aquela estranha fragrância que fascina apenas os mais experimentados na arte do seu silêncio. Onde poisam os sentidos e o mais leve dos suspiros. E onde as luzes se apagam arrastadas pelas sombras em observação atenta.

 

O mais experimentado nos fascínios geniais nocturnos prefere olhar em vez de dormir. O corpo nu, exposto e indefeso, não deve ser perturbado enquanto suspira suavemente no seu sono compassado. O turbilhão mental nunca parece apaziguar-se e no entanto? Funciona como uma alquimia de ritmos, onde um corpo de massa rochosa se perde entre as curvas de um rio solene. É embaraçosa a potência arcaica que parece subjugar certas noites de fascínio e onde certos olhos nunca parecem cansar-se de transparências e fragmentos.

 

Talvez seja esta uma condição atribuída aos demónios. Tranquilizar-se em sombras pela gentileza do subir e descer de um peito descoberto. Deixar que se vacilem os sentidos nos lábios semicerrados e de onde esvoaçam suaves sopros de vida. Talvez.

 

Certas noites existem sem as mentiras dos dias de luz solar. São as noites de revelação absoluta. Tudo seria negado e atirado para um canto se assim fosse necessário.

 

 

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(999)

 

 

Existe um preço para os momentos felizes, dizem; é preciso que continue a caminhada enquanto se calibram sentimentos e se adaptam as palavras. E afinal, reconheço que nada disso é verdade. Pior, nada disso interessa.

 

Reconheço também que existe, de maneira estranhamente visceral, quem consiga despertar em mim outros sonhos vistos por olhos que não apenas estes. Que a escuridão é tão obscenamente encantadora, tão gigante se propaga quando acompanhada por desejos íntimos de libertação e luz, que parece apenas ser posse de uma única pessoa.

 

Não sinto que seja louco. Ou então não muito mais louco do que antes. Mas este fogo inesquecível deixou de me atormentar os dias. As emoções reveladas a cru sempre foram as mais elásticas e difíceis de descrever, mas são um alimento tão portentoso de energia! Creio ser bem capaz de esmagar o universo em estilhas: pura e simplesmente porque o calor emanado é tão intenso; porque o meu lugar assenta junto a um sacrilégio esfomeado por mim. E eu tenho tanta e tanta ânsia. E tamanha é a fome dilaceradora.

 

 

Gostaria de escrever nas consciências o quanto me faz rir o sentimento de calor humano. Seria importante gravar a ferros que o vazio se torna imenso quando não existe o animal emocional; quando se perde o brilho de um olhar que nos despe e queima, imolando todas as certezas e definições.

 

 

 

 

 

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 Eu

 

(999)

 

 

Ninguém na sua perfeita racionalidade deveria esperar retribuição de um olhar frio e distante. E portanto, existem os que persistem, teimosos de convicção. Incapazes eles próprios de aceitar o fracasso e suposta impossibilidade de transpor paredes e muros altos. Creio na minha incapacidade de partilha em larga escala. Não por arrogância  ou presunção Deus Ex Machina; é um facto penoso mas existe quem não consiga absorver tanta gente ao pé de si. Por absurdo que seja, consigo com dificuldade, reter um reduzido número de verdadeiros amigos. Impossível conceber rodeado de gente em festas. É sintomaticamente aterrador.

 

 

A palavra "amo-te", exprimida com brilho no olhar e por quem consegue descarregar doses letais de certeza emocional, funciona como a destruição do ferrolho; mesmo prevalecendo a minha noção do quanto distorcida e vulgarizada tem sido esta expressão. Ainda que insista no questionar da sua importância, alguém persiste e afirma claramente a noção de excepção que confirma a regra.

 

Eu nunca imaginei qualquer tipo de imunidade a ser amado. Sei por análise frequente que existe uma dualidade na primeira observação de quem me encontra. Uma nuvem de incerteza muitas vezes extremamente visível; e receio, que acredito ser causado pelo aspecto físico. Não me parece que haja um meio-termo ou outra possível comparação. A minha irritação inicial pelo facto desta reacção ser tão estupidamente comum foi sendo progressivamente substituída por um certo divertimento pessoal; é fácil despertar comportamentos embaraçados a quem receia ou está incerto. Basta que mostre de forma bastante suave os dentes num sorriso afável. Observam que afinal, as presas do urso até parecem inofensivas e se calhar houve precipitação. Mesmo desconhecendo que sou criatura apaixonada pelas artes da mordidela dada e principalmente recebida.

 

Por um qualquer desvairo existencial, entre tantos "amo-te" atirados ao vento de forma banal e absolutamente asquerosa, existe um, segredado nas horas mais escuras, quando o pensamento se tornou numa massa turva e nebulosa, que possui alquimia de salvação.

 

Alguém insistiu.

 

Falta agora que me habitue a aceitar uma derrota.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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(999)

 

 

A martelada final, a que é dada em excesso e sem necessidade de ser executada porque inevitavelmente irá destroçar a madeira, é sempre desferida pela pequena criatura compacta. O golpe é sempre aplicado depois de muitas outras criaturas; serve apenas para tentar demonstrar que está viva e desesperada por atenção.

 

A criatura pequena envolta em maneirismos compactos absorve o pó das atmosferas alheias. Sem vergonha, imita. Clonando palavras e gestos desfeitos na acidez de um temperamento misturado. Impuro. Regressa quando os outros, seus espelhos distantes, já se afastam. Mendiga sem compreender que os outros já são ricos.

 

Ao que se transformou não aceita e permanece de joelhos, inculta aos ferimentos e cega ao seu próprio adormecimento. Os fenómenos, acampados pelas monções, que lhe fustigam as ideias, são sempre expostos até ao nojo absolutista; oscila pela corrente de uma maré que não entende. Se é necessário fornecer o rebanho com as armas de guerra assim será feito. Se rasgar todas as normas biológicas for a nova paranóia e propagar a existência de um número infindável de termos absurdos, segue em fila e disposta a cumprir. Se usar a a cor da pele como artefacto para justificar uma imbecil noção de privilégio e ilusório domínio vier dar ao seu consciente retardado, depressa será exposto. Por imitação de macaco porco e idiota.

 

Mas o que mais me fascina de maneira tristemente decadente é a execução sobriamente técnica do compactar destas criaturas. Injectam em si próprias, qual escorpião estropiando-se para morrer, o sinistro soro que dissemina o erro do pensamento: compreendem política, filosofam noções e mistérios existenciais sem alguma vez destilarem a constatação de que todos possuem opiniões, mas a matraca deve ser fechada porque raramente são merecedores de verdadeira atenção. 

 

É o compacto passivo que prova o caviar e afirma adorar pensando nos ovos salgados com nojo. Na atitude prepotente e ameaçadora da outrora querida que descarrega a crescente menopausa em mais uma imagem de aplauso na rede social. Na obscenidade compacta, gorda e arruaceira, colada ao sofá de pele borrifando insultos a bonecos que correm atrás de uma bola.

 

É o compacto que na derrota profere abortos na forma de escrita e assume conhecimento. Que na maior das desonras fala sobre o que nunca entendeu para quem assiste. Como se imitar e clonar fossem atributos a justificar a tirania de idiotice.

 

 

 

 

 

 

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 " Sabes que reter o respirar por muito tempo, leva ao sono eterno?..."

 

(999)

 

...

 

 São de magnânima virtude aqueles que conseguem resistir ao vazio frio e áspero das ausências. Uma serena minoria, direi, que parece transformar em canção interior, como se mastigasse, digerindo lentamente, o sofrimento de uma paixão quebrada em lascas quando pessoas se afastam para sempre.

 

A minha compreensão não abarca tanto. Mas certos vigores transparecem montanhas. Só um oceano ocupando o lugar da consciência mais racional consegue justificar para mim que certas criaturas perante uma caixa repleta de escuridão, colocada com sobriedade por quem saiu, consigam respirar em estado de sufoco e emoções que são massa de vidro rude.

 

Para mim a virtude de alguns na sua bizarra sagacidade não escorre na lâmina grotesca de certas despedidas; este não é o maior dos fardos e tormentas. A magnitude de certas criaturas habita no seu cantar interno ao martírio de um silêncio sem fim, a rejeição e as incertezas. Na recusa de dobrar a uma dor que fica impassível mesmo que coberta pelo sal da inevitabilidade. Quando criaturas amadas se esfumam por completo e como se nunca tivessem partilhado caminhos.

 

 

 

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999

 

...

 

Nada se revela de maior perfeição do que um restrito círculo de amigos. Um pequeno anel de cúmplices de todas e nenhumas horas. Companhia por caminhos estreitos e onde é a noite a verdadeira mãe. E mesmo ainda, companhia, quando brilham as luzes reverentes ao acordar de mais uma passagem de Hypnos.

 

A raiz da minha descrença na ideia de uma verdadeira felicidade apenas atingida pelo calor de muitas amizades nasceu do egoísmo. Sou um egoísta que aprimorou a solidão como fonte de inspiração a prosseguir a minha vontade. Os que sempre me chamaram arrogante e presunçoso desconhecem a minha indiferença e um facto absoluto: a solidão encadeia os sentidos do solitário e permite realmente desfrutar, saciando a sede, dos verdadeiros amigos. Reconhecer um entre centenas é uma alquimia rara e apenas concedida ao solitário penitente.

 

São imensas as criaturas que desdenham desta noção que estabelece as amizades restritas. Como se este mundo fosse um imenso circo onde se pensa, pateticamente, abrir os braços ao mundo com dezenas de amigos porque tudo se liga e relaciona na sacrossanta rede social. Santa ignorância! Como se fosse apenas isto o necessário. Um gosto na fotografia é coisa para ter muitos amigos.

 

Quantas serão as almas deste mundo que retendo em si mesmas a ilusão de muitas amizades, conseguem sentar-se frente a frente com alguns destes? Falar olhos com olhos. Sentir a solidão esvair-se graciosamente pela força do riso de quem nos acha demasiado sérios.

 

Um pequeno anel de amigos e amados. De viajantes embalados na cumplicidade de emoções e desejos.

 

Tudo o resto se revela sistematicamente de uma inutilidade medíocre e sem necessidade de um segundo olhar.

 

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Poland 2017.

 

 

Thank you! We will never forget.

 

Until next time.

 

 

Besiege the thrones of reverence!

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 " Devemos a quase totalidade das nossas descobertas às nossas violências, à exacerbação do nosso desequilíbrio. ", Emil Cioran

 

(999)

 

Mil palavras não seriam  suficientes para o descrever. Talvez a viagem apressada do sangue pelo corpo seja um pálido reflexo. Talvez o medo de esmagamento. Talvez o incessante pensamento a martelar - que a manhã se encaminha e o esforço da noite findará - seja o suficiente para aceitar o descanso.

 

O que é este sentimento de gigante que sinto? Esta profana noção de força bruta assusta-me. Tentar significados quando se superam fraquezas não tem descrição. E mesmo a lógica mais fria não comanda o conforto da negação ao que foi antes vaticinado. Não se explica. Sente-se nas piores tormentas. É pele que não se veste como galhardo esforço para aparência. É carne temida pela mácula dos frutos que para ti, ele, ela e eles, geraram uma capacidade quase surreal de forçar uma força que nunca serão capazes de sonhar.

 

Mil palavras não descrevem as mãos gretadas pelo atrito no ferro. Como se tornam grandes para não deixar fugir o momento em que finalmente aquele peso, antes miragem de espantos, se eleva do solo. O sangue que escorre entre as narinas quando as costas lutam com o peso e a gravidade. E alguém consegue sequer vislumbrar  o êxtase de passar a língua por esse sangue que escorre quando  nos gritam, entre a névoa da dissipação mental, quase de mãos dadas com o desfalecimento: " - Conseguiste!! "

 

... Uma vez mais.

 

Já me foi afirmado que certas tentativas de superação são perfeita loucura e caminho para um fim rápido. Uma grande maioria.

 

Outros, poucos, quase irmãos, sabem do segredo religioso. O delírio que enche o corpo e a mente. O triunfo de uma dor partilhada por ombros, peito, costas e pernas em fogo. Alquimia de espessura muscular que cria gigantes ...

 

 

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