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" Nós que defendemos outra fé, nós que consideramos a democracia não só como uma forma degenerada da organização politica, mas como uma forma decadente e diminuída da humanidade que ela reduz  à mediocridade, onde colocaremos a nossa esperança?"  Nietzsche

 

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De todas as cedências que inevitavelmente faço, dar a outra face não é uma delas. Sempre me pareceu covarde o conselho dos que defendem esta ideia; após a primeira bofetada perdoar, e se assim for necessário virar a outra face.

 

Estranho. Covarde e inadmissível. E que nada tem a ver com o valor da cedência em nome de algo superior, que não esmague o individuo pelo colectivo.

 

Escrevo sobre ceder. Pequenas cedências que vão talhando o que somos. Maneiras inventadas para uma aceitação.

 

Cedemos em nome da estabilidade que troça de nós todos os santos dias da nossa miserável vida; baixamos a cabeça e a voz, preciosa voz, ao primeiro bofetão de quem agride porque faltam as forças da coragem e porque a próxima bofetada será mais forte. Mais humilhante. Aceita-se porque se teme o abandono ou a morte. E sim, porque existem filhos para cuidar.

 

Confundimos amar com ceder para melhor. Somos tristes incautos e incapazes de entender a nossa falta de inocência disfarçada de serenas promessas.

 

O maior embuste a que nós, veneráveis incorrigíveis, entregamos a nossa alma sem questionar chama-se democracia.

De todas as formas de ditadura, de pensamento totalitário de bem colectivo que nega o individuo, a democracia talvez seja a mais venerada; uma forma de tumor benigno de outras ditaduras justifica de tudo um pouco. Justifica a supressão de direitos em nome do politicamente correto; a implementação de bens e costumes para todos onde a negação se transforma em insultos e atribuição da chancela do discurso do ódio.

 

Tenho nestes últimos meses testemunhado em primeira pessoa a democracia a funcionar. São semanas a observar a deturpação sistemática da minha liberdade de expressão porque não defendo outras cores; noites a sair de recintos lotados por uma paixão comum e  lamentavelmente ter de recorrer aos punhos para me defender de supostas brigadas " antifa" com os rostos tapados. E descubro que são criaturas que não aceitam o que sou e quero; que não são tolerantes ao que exprimo. Descubro que a democracia é um conceito absurdo e utópico, tão delirante como a necessidade de não aceitar as diferenças.

 

Veste-se de justiça e direitos para todos. A cor dos seus olhos é fiscal, sempre pronta a humilhar e violar direitos. Mas não aceita a minha discordância e muitos menos tolera outros caminhos.

 

Descubro que a democracia é uma ditadura inválida disfarçada de graças e atributos. Que não se orgulha na aceitação das discordâncias. Uma impostora que se atribui a si própria as mesmas virtudes do totalitarismo mais raivoso: imposição de doutrinas com a ponta das botas. Um conceito vendido durante séculos e em cujo nome se poderiam recitar poemas das maiores atrocidades.

 

Mas estranho a fraqueza dos seus "democratas" de cara tapada na noite. Eles sangram e choram.

 

E são muitas a vezes que fogem como ratos enquanto chamam pela mãe.

 

Frágeis e ocos.

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As pessoas são como fontes. A maioria, grande maioria, pinga apenas liquido azedo e inútil. E o viajante experimentado sabe que não conseguirá saciar a sede nestes fontanários envelhecidos por anos de incapacidade. São fontes antigas e consumidas pelo pensamento arrependido do que poderiam ter feito e nunca fizeram; é possível a quem realmente caminha em viagem escutar os seus pensamentos transformados em mágoas liquidas de escolhas infelizes em nome dos outros. Escutar. Perante o fim que se aproxima esfregando as mãos rugosas e frias. Entender como inútil foi a sua existência.

 

E existem pessoas que são labirintos para mim. Eu sempre procurei labirintos estreitos, quase escarpas. Conheço criaturas que são labirintos a desembocar em um nada branco; paredes alvas de absurdo nulo pingando becos sem saída. Conheço.

 

E sei de outros labirintos estreitos que vão desaguar em fontes que jorram pedaços portentosos de uma estranha alquimia. Aqui o viajante cansado pode repousar em paz e beber até ficar alucinado. São fontes que calam a voz dos cínicos e descrentes a tragos generosos.

 

Conheço um rei destes labirintos que terminam em fontanários cristalinos. Nos gestos toldados pela paralisia cerebral um reino de corredores estreitos e ameaçadores. Mas no pensamento subtil e engenhoso toda uma arte de fuga e superação, própria aos que não se escondem nos lamentos da má sorte. Pertença das criaturas de mito.

 

Eu não sinto qualquer acesso de piedade por ele. Antes uma maldita humildade e cumplicidade. Nos dez longos minutos que decorrem para apertar o cinto no buraco certo; na recusa em ser ajudado nas mais pequenas tarefas que eu e toda uma raça de criaturas, executa inconsciente, existe uma teimosia orgulhosa que apenas, mas mesmo apenas, irradia na periferia de certos recantos da alma.

 

Encontro nele algo raro que me obriga a levantar os olhos do abismo: justificação! Motivo para outros dias.

 

Que a grandiosa mãe natureza, essa incoerente e débil mutante, lhe tenha roubado a virtude da fala coordenada sem a necessidade de um esforço desumano para exprimir um verbo, que os seus olhos castanhos só a esforço consigam alinhar-se e os movimentos do seu corpo sejam muitas vezes os de uma marioneta caótica, este rei do labirinto responde com um sistemático sorriso gigantesco; batalhando todos os dias para se fortalecer e coordenar como uma bofetada de revolta.

 

Genuinamente se silenciam outros lamentos ou desilusões. Quando soa a gargalhada de triunfo pela vitória de mais um peso erguido do chão.

 

Com a força de quem luta para se endireitar e permanecer  erecto. 

 

Como assim deve ser num rei orgulhoso.

 

E eu? Eu vejo-o. E amo os labirintos.

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“Uma pessoa não é iluminada por imaginar figuras de luz, mas por estar ciente da escuridão.” Carl Jung, arquétipo da sombra.

 

 

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Talvez se trate de redenção. Da nossa própria salvação quando sabemos perfeitamente que somos nós próprios a cavar a estrada do nosso inferno; só existe inferno porque assim queremos e sentimos essa necessidade. É pessoal. Único. Nosso.

 

E não depende da salvação de um profeta redentor. Nem da inexplicabilidade do seu nascimento ou das suas promessas perdidas. Não.

 

Está bem longe disso.

 

Johansen reside no patamar de todos os purgatórios mentais. Artesão do seu próprio inferno. Desesperado na tentativa de se redimir de uma escuridão temperada com o sal de quem parece não conseguir viver num pequeno nicho deste mundo. É muito maior o tamanho da sua consciência e necessidade de espaço.

 

Quando nos conhecemos a sua primeira pergunta foi sobre a veracidade da minha cor de olhos. Ficou satisfeito com a minha resposta e puxou os cabelos longos para trás da cabeça, num gesto que hoje creio ter sido de pacificação, mostrando o buraco no seu maxilar esquerdo do tamanho de uma moeda. Uma extensa área da sua face esquerda apresentava também uma coloração escura que contrastava com a sua pele branca como neve.

 

Johansen conhece os atalhos de uma escuridão imensa e sem retorno. Da luz a desaparecer. Reconhece o seu falhanço naquela manhã quando o seu pensamento decretou a fim deste inferno. A frieza do acto subitamente traída, a mão tremeu e o dedo indicador direito perdeu a força. A hesitação desviou a bala do seu destino certo junto à carótida; mas a vingança foi consumada e a viagem levou um pedaço do seu osso do maxilar, queimou a face e arrancou um pedaço da sua orelha.

 

E tudo parece tornar-se vivo nas sombras de Johansen quando se senta e apoia o seu pé esquerdo no pequeno banco junto ao sofá. Quando faz soar as cordas da viola molda o seu próprio universo. Os cabelos escorrem pelo rosto crispado e as suas notas transfiguram a alma. Uma tristeza quase desumana invade o ar e liberta as correntes. Toca e faz vibrar as cordas enquanto se agita suavemente. Murmura muito baixinho uma melodia que apenas ele conhece mas que tem a particularidade de apertar o coração encharcando-o numa melancolia que nos deixa exaustos.

 

Talvez seja esta a sua redenção quando o Cristo lhe faltou. Este portento de expressão instrumental onde vive o  desespero de braço dado com as marcas do inferno. São sons e vibrações que nos sussurram desejos e emoções escuras.

 

E sei que são momentos destes que fazem soar as lágrimas de Johansen. Apesar do cabelo que lhe tapa o rosto como um Cristo proscrito.

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Preludio a la siembra

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Nunca a luz do sol me fascinou particularmente. Nunca aceitei o calor dos dias de sol intenso como bálsamo para os ossos e necessário para que sinta qualquer memória de renascimento. E são demasiadas as vezes em que são as memórias a causar o florescer das cores do Outono e o carinho do Inverno. Demasiadas.

 

A mente humana subsiste na associação de odores e sons. Os olhos e os ouvidos são o registo mais sombrio por onde passo e quando os meus dedos se fecham no corrimão das escadas as impossibilidades tornam-se possibilidades. A torrente de recordações retida a custo jorra.

 

" tenho um ódio de estimação a portas de vidro que se abrem para gente doente; ao barulho das rodas de borracha a chiar pelos corredores de pedra; a senhas de cores diversas e ao olhar indiferente de quem chama do outro lado do balcão, sempre com as mesmas perguntas. sinto-me perfeitamente capaz de amaldiçoar a luz do sol todos os dias da minha existência se assim conseguir sossegar a memória da nossa passagem pelas portas de vidro de gente doente. se assim aceitar a cobardia e não pensar no corrimão plantado no meio da escadaria, enquanto não consigo votar ao esquecimento a mão pequena e húmida apertando a minha.

 

é quase grotesco aquele dia de sol intenso e cego; aquele calor nas costas e o suor a escorrer pelas costas. a memória não atraiçoa quem se ajoelhou diante de ti no corredor de pedra; e se despediu perguntando ( estupidamente questionando...) se estava tudo bem; e creio bem que o acenar da cabeça, ainda coberta de longos cabelos de cor quase ruiva, como vinho tinto, nada mais causou do que o estropiar da pouca dúvida  entre o nada e Deus. os olhos disseram não, mesmo não chorando; os lábios foram trincados travando a angústia e incertezas. e quando desapareceu no quarto pensei em monstros que abrem a boca e engolem crianças; nunca mais deixei de ter esta emoção quando entro em quartos.

 

e durante horas, dias transformados em semanas a fio esteve deitada e poucas vezes de pé; consegui pressentir a morte sentada naquela face; troçando nos olhos vermelhos ladeados por negro, na pele outrora branca e lisa e agora soltando pequenos flocos e nos lábios escurecidos pela radiação. ali e em espera atenta para ceifar. 

 

todos os dias eu morria um pouco com a criança. imbecilmente desistia de esperar, mesmo observando como se debatia e lutava; não vertendo uma lágrima pelo crânio  rapado mas irritando-se quando eu rapei o meu com demasiado e longo cabelo; mesmo quando se forçava a comer para depois vomitar querendo engordar um pouco!

 

imbecil! nunca se pensa em desistir  perante quem quer passear pelo jardim nem que seja às nossas costas! caminhar vinte escassos metros e regressar ao colo. nunca!

 

só um estúpido não concebe resistência quase mística na fragilidade que batalha para viver, ficar acordada e escutar a minha voz lendo passagens de Hans Christian Andersen como esquecimento.

 

será necessário que cale estas memórias principalmente nos dias de sol. que espante demónios paulatinamente colocando-os debaixo de toneladas de rocha. encontro demasiadas justificações para ódios, frustrações e maus instintos diante demasiadas coisas e pessoas, que nem sequer são culpadas. sinto demasiado cinismo perante as tragédias dos outros. 

 

egoísmo? sim. dane-se!

 

retenho ainda esta centelha de alimento que me serve para consumo esfomeado.

 

saindo pelas portas de vidro onde entram os doentes do mundo. eu num tremor de triunfo e agarrando a mão de novo suave e apertado-a para que não me fugisse; ela, mais envelhecida porque afinal os verdadeiros combatentes são uma casta que envelhece mais depressa e por isso de veneração obrigatória! retirando o gorro azul de pontas longas e olhando para o céu sinistramente cor de chumbo e o pequeno nariz avermelhado cheirando a humidade extrema da manhãzinha cedo; a cabeça agora e de novo com cabelo raso e vermelho cor de vinho naquela beleza rara e perfeitamente triunfante sobre o efeito que irá provocar nos corações dos incautos que se encantem por ela; no passo apressado sem necessidade de colo; precocemente adulta e de olhos astutamente preparados para as desgraças de uma vida que por vezes é apenas merda explicita!

 

naqueles minutos sofri o punir exemplar pelos dias de dúvida mesmo sem desistir. e não é de todo agradável, é  doloroso. muito. mas é o que o penitente merece.

 

quando lhe perguntei o que iríamos fazer pediu que fossemos a uma casa de gelados; simplesmente pediu duas imensas bolas de gelado de chocolate negro e bolacha; o Universo não respirou nesses minutos, aquietou-se para observar e aprender com uma criatura quase mística em liberdade plena e sem a sua armadura de guerreira absoluta.

 

enquanto eu ia absorvendo o mutilar  e  a humilhação de quem aprendeu algo que sempre julgou saber"

 

 

 

 

 

 

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Sou um homem de gatos. Seria fastidioso explicar o meu fascínio pela sua independência. Como desnecessário será revelar as muitas demonstrações de carinho e principalmente companheirismo destes reis de si próprios.

 

Também gostos de cães; ainda que menos, creio. Mas é impossível para mim que não aconteça uma vaga de admiração por  estas criaturas.

 

E  "Corto" é um caso distinto. Talvez na aparência seja igual a outros da sua raça. Talvez consiga perfeitamente ser mais um entre outros tantos; todos eles fieis e de beleza quase draconiana que tantas vezes se revela um embuste, porque invariavelmente nos encanta e esfumaça as  defesas .

No entanto, eu tenho a bizarra  tendência para observar paradoxos como justificação para acreditar em algo; tinta para os dias de dúvida. Pequenas criaturas que somos e de maior capacidade de razão, que nada serve quando penso no "Corto".

 

 "Corto" é uma criatura distinta. Diferente. Não faz parte da minha ideia de um entre tantos. Mas igual a alguns outros num pequeno ponto da elite natural. Assim teria de ser porque "Corto" é o olhar de quem não vê. São os olhos do caminhante da bengala nos dias de frio e ruas molhadas; das travessias nocturnas e das corridas pelo parque no raiar do dia quando tantos dormem.

 

Existe um manto de absoluta nobreza neste enorme cão. Na postura do pescoço direito e grosso. No caminhar silencioso e no estrondo do seu ladrar. No sentar lado a lado com quem não vê. No instinto protector, quase paternal, que rodeia todo o espaço que ocupa. Algo poético e épico.

 

Recordo-me de quando partiu a pata direita dianteira numa das nossas brincadeiras. No instinto de erguer este colosso do chão como se um filho fosse. Lembro-me do seu latido e das lágrimas a escorrerem pelo rosto de quem subitamente se sentiu mais cego e impotente; de braços esticados e frágeis. Lembro-me.

 

Do abraço estranhamente humano entre um homem e um animal. Do rosto molhado unido ao focinho do cão, dos seus olhos para o mundo. Do esmagamento asfixiante e descrente que surge quando constatamos, compreendemos, o que significa simbiose perfeita: naquele preciso momento. 

 

Aprendi então da inexistência de dono ou propriedade; de formulas sem valor de posse ou domínio.

 

Recordo que retive o meu respirar durante largos momentos. Chocado. Um estranho num universo que não era o meu.

 

Recordo...

 

Gosto de passear "Corto" sozinho. Quando não necessita de ser os olhos de ninguém. Quando é apenas ele. "Corto".

 

Gosta de caminhar e correr na praia. Prefere os dias sem sol e sem gente. Prefere os céus cinzentos e quando o vento sopra uma aragem fria e húmida. Entra na água fria e levanta o nariz para o céu cheirando e absorvendo a maresia, de olhos semicerrados e corpo encharcado.

 

Gosta de correr ao meu lado e de rebolar na areia molhada enrolado no meu corpo, enquanto finge estar zangado comigo. "Corto" é nobre e tem alma de poeta. Um príncipe nascido para ser venerado. Senhor que dita a vontade de viver para quem, por vezes, se recolhe na sua escuridão e verga ao peso da falta de uns olhos que vejam aqueles mesmos dias na praia; cinzentos e de mar cor de chumbo.

 

"Corto" é distinto. Sei que sim. Uma criatura que me recorda ainda ser possível nobreza desinteressada. Instintos que me afirmam que nem tudo é caminho para o niilismo. Ainda existe esperança. 

 

 

 

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(999)

 

 

Sei agora  que o pequeno e estreito caminho que conduz à minúscula estufa já não é percorrido todos os dias. Na neve ou no brilho do sol ameno. Que a vegetação se alongou e queimou debaixo do manto da geada. E o silêncio se revela insuportável na sua homenagem.

 

Soube há poucos dias...

 

Que já não adianta que me sente no alpendre acompanhado por este café negro como corvos, descansando as pernas de botas assentes no apoio de braços pintado de branco recentemente.

 

O velhote já não volta a sair pela porta de casa pisando as pedras húmidas do pequeno jardim; não caminha já, solene, gigante entre pétalas tardias e insectos negros, para a estufa de vidro baço. O ajoelhar quase etéreo e o curvar melancólico da cabeça grisalha numa oração silenciosa, o depositar de uma flor num pequeno lugar, são apenas espanto meu. Testamento escondido.

 

Eu sei que vou aceitar como sempre. Sei.

 

Não voltar a escutar o ranger da pequena porta de metal que oferece a saída do jardim para o passeio da rua larga. Nem testemunhar a quase maquinal orbita do fino pescoço, como manobra para desentorpecer a magnitude da solidão triste.

 

Sei.

 

Mas creio firmemente que este mundo está mais pobre e desolador. Inexplicavelmente mais encolhido e magro.

 

O velho senhor já não volta a caminhar erecto e sem a curva dos anos pelo passeio até se evaporar entre o nevoeiro húmido das manhãs e a esquina turva da rua de pedra branca.

 

Disseram, creio que para o meu consolo, que já se faziam tardias as horas e os dias de saudade do velho senhor. De quem? Do quê? Alguém me assegurou que por vezes amar outra criatura era assim, doloroso na ausência. Cruel no respirar nostálgico; onde todos os dias se tornam espera em saudades.

 

Não o sei.

 

Para mim, pelo muito que nos últimos dias conheci do velho, reservei um absurdo sentimento de perda. Um vazio agreste e gelado de estrelas distantes. Não se explica esta insustentável noção de vácuo onde antes passava, depositando uma homenagem, um velho a quem nunca exprimi um som.

 

Mas que sinto ter conhecido toda a vida.

 

 

 

 

 

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Existem criaturas cuja velhice se enamorou de uma qualquer sólida árvore. Um carvalho, talvez. Duros. De uma persistente capacidade de resistir à monção dos dias. E o orgulho de qualquer sábio carpinteiro, porque tudo o que contam se tornou maleável ao sonho antigo. Ao pontuar de palavras roucas e suspiros cansados.

 

São raros. Mesmo entre velhos muito velhos. Tomos de uma obra que força o silêncio e respeito. E que choram. Lágrimas como outros muito velhos. Ainda assim nunca iguais. Ainda assim únicas.

 

Conheço uma criatura já muito antiga. Enamorado na antiguidade das árvores seculares, por estes dias, neste seu entardecer da idade, sei que chora. Um gemido surdo, coroado por um silvo suave, que parece arrastar-se com a ligeireza daquele vento que dança entre os ciprestes húmidos do seu jardim. Agora aparecem mais vezes os ventos do Outono. E chorar parece ser agasalho e serenidade.

 

Tenta cobrir os olhos húmidos com os óculos de lentes grossas. Com o fumo espesso do cigarro eternamente presente. Mas é doloroso ver chorar a fragilidade épica. Sabendo que anseia o fim enquanto se vai banhando na saudade tão intensamente dolorosa de quem foi antes de si; resistindo na tremida luz de um dia chegar ao céu e voltar a juntar abraços.

 

Esperança.

 

Este viver, este resistir aos anos, dormindo na solidão mais sinuosa onde em cada passo regressam memórias, onde ainda é necessário reter pingos de sanidade para não sentir odores queridos, apodreceu qualquer fruta desta velha árvore. As lágrimas são apenas as últimas notas de um fim que espera há muito. Uma traição aos últimos traços da sua paciência velada.

 

Ainda assim força silêncios e reverências como os velhos carvalhos a rachar entre tempestades e neves. Silêncio e assombro. No meio da tantas outras árvores tão verdes e perfumadas.

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(999)

 

 

" A timidez, inesgotável origem de tantas infelicidades na vida prática, é a causa directa, mesmo única, de toda a riqueza interior." - Emil Cioran

 

 

É possível que outros sintam orgulho em algo feito por mim. Estranhamente, só no meio da multidão consigo aceitar este facto. Como se fosse necessário que esta parte de mim, sempre tão escondida e foragida, se misture com outros, receba o elogio espontâneo; sem que seja necessário lutar por ele.

 

Creio sinceramente na lógica fria que demonstra a necessidade de sentir o oposto para atribuição de valor. Valorizar o calor após sentir o frio; receber o ardor de um beijo após a sua ausência; apreciar companhia depois de pernoitar na mais absoluta e consentida solidão. Por muito que tente negar, são estes reflexos que respiram em mim. E me alimentam.

 

São fragmentos de lógica que alimentam o Caos mais primário que habita em tudo. Em nós. Em mim. Comunhão de palavras, olhares partilhados, ritmos obscuros aceites e venerados. Existem muitas estradas;  estas longe dos caminhos mais marcados pelos passos de todos os dias. Encostas escondidas onde moram outros animais e outra fé. Escuridão verdadeira e luz distante, como premonição.

 

E sinto-me parte de algo. Gente. Mesmo que diferente. O calor de tantas criaturas revela-se como absinto da alma: consumido sem pudor alucina a mente e a tentação de permanecer ali, para sempre. 

 

Esta é uma beleza negra. Oposta. Apenas partilhada pelo som e pelos olhos descritos nos espanto do fim de uma viagem.

 

Uns chamam-lhe vertigem escura e perigosa. A evitar se queremos seguir o caminho da virtude humana.

 

Outros é  o Caos libertador. Renascimento. Caminho de floresta escura.

 

Eu. Meu.

 

 

 

 

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Die Glocke ...

 

(999)

 

Reveste-se de suma importância a moralização. É necessário para a humanidade não periclitar que exista quem aponte o dedo em aviso, tentando dissolver a escuridão que persiste em morar nos corações mais corruptos. Não deveria ser contestada, pelo menos por quem se considera racionalmente estável, a necessidade imperiosa de punir certas falhas morais que vão desviando as almas mais permeáveis; ainda que nestes dias se recorra aos conselhos sábios pejados de censura, já que chicotes e danações são métodos de outras eras. Saudosas épocas. Mas de outros tempos.

 

Persisto num fascínio que muitos afirmam doentio. Fixativo na consumada estrutura, tão apascentada e orgulhosa na sua imagem, de quem soletra palavras como "moral duvidosa" e principalmente, " vida promiscua": de cana em riste e apontando outros caminhos; como professores ou tutores eméritos. Sempre com um ar severo de quem muito tem para mostrar e nada a esconder.

 

Abato-me severamente em inferioridade com as senhoras que cheiram a rosas. Sempre insistentes no seu aspergir moral perante um promíscuo. Agredi-me a sua santidade de resguardo e temor. Como que temendo a violação dos seus espíritos com correntes de gelo; existem criaturas estranhas e pouco morais. São senhoras que sabem que sim. É possível. Salvem-se virtudes por destemida defesa moral. Garantem-se assim inviolabilidades.

 

Sincopado, mais me recolho em embaraço, aos pequenos senhores revestidos do aço sólido da demanda virtuosa de salvamento. Como poderia resistir eu a certas façanhas tão padrecas do virtuoso que inala o perfume jacobino com conta, peso e medida? Bate ardentemente na palavra, nunca se cansando de tentar o castramento alheio. Porque deveria ser assim, agora. Como antes o foi. Pequeno homem: absurdamente castrado por senhora a cheirar a rosas.

 

A moral deixa-me inerte. Reduzido a um veneno. Em leproso isolamento. Não existe a beleza da harmonia nos meus dias. Devo deixar de respirar sem a subsistência vigorosa do alimento moral.

 

 

 

 

 

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No velho cardápio de atrocidades cometidas contra as emoções, o humor é um dos mais visceralmente retalhados. Uma emoção que deveria permanecer cristalina e sabiamente trabalhada, polida e afoita na sua convicção, transformada em descampado de entulho.

 

Porque deixemos qualquer sofismar: a maior parte das criaturas supostamente racionais que pulula debaixo deste sol não tem graça. Nenhuma graça.

 

Isto é ainda mais persistente para alguém como eu cujo o sentido de humor nunca se revela particularmente frequente e por isso mesmo é tão rapidamente visível esta brutalização. São escassos os iluminados que conseguem despertar em mim a veia do riso rasgado. Porque possuir a dádiva do humorismo não se revela nas expansões de uma grande maioria que imagina humor com a boa disposição da palhaçada geral; onde todos devem ceder às graçolas infantis. Lamentavelmente, é desconfortável para mim ser forçado a suportar a falta de graça.

 

E é o despenhar mais absoluto, a mais firme e inominável imbecilidade, quem não tem um centímetro de graça, sujeitar a nossa já caduca realidade ao conspurcar do universo irónico. O anátema mais cretino, vil e despropositado de quem se encarrega de transformar o riso num mero esgar risus sardonicus estremece toda e qualquer lei de bom senso, pela mera profanidade de tentar juntar ao humor a ironia. Só um traidor humanóide cujo secreto lema seja cilindrar a pouca tolerância existente, se delicia a assassinar a fina e rara arte do humor irónico. Bem tentam: escrita em piadolas incoerentes dançando destemidos na ilusão da ironia. Seguidos por um parco séquito de iguais pigmeus a bater palmas a quem não tem graça. Apenas por amizade e espírito de cretino.

 

Uma falha minha. Reconheço. Limitações na minha engenharia não permitem laivos muito extensos ao humor. Sou incapaz de sentir emoções perante o castiço supostamente engraçado do vernáculo alheio; piada escrita em televisão, rádio e principalmente ao barbarismo da criatura comum que tenta a ironia humorística no pequeno  blog.

 

Crucifico a minha consciência. O pouco acesso de riso que é da minha propriedade vai para o inquinar de uma sóbria minoria que como eu venera o humor seroso, fleumático, sem dúvida, que procede de modo maquinal ao destroçar da maioria inferior. Utensílios de destruição maciça? Ironia e humor negro. Inatos. Sempre inato e impoluto. 

 

 

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