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Às vezes basta cruzar as portas e voltar à rua. Deixar que se fechem atrás de nós num reconhecimento sentido de que terminou, naquele sentimento que suspira uma secreta paz alegre. Voltar a pisar o cimento no regresso de olhos postos longe, num emaranhado que balança entre a saudade que ficará e esse instante quase despercebido de algo que se liberta sem retorno.

Adeus. 

Quantas vezes me afoguei nesta palavra?

Tão poucas e raras porque sempre foi definitivo esse adeus. 

E parecemos não ter uma clara noção do que encerra em nós um verdadeiro fim de caminhos cruzados, em que se torna este mundo quando cruzamos as portas e não voltaremos a regressar. O peso da certeza nos passos que se afastam cada vez mais depressa. O que significa esse preciso instante no que restará após a despedida. Um adeus impregnado naquele cinismo do que é realmente, inequivocamente, sentido em cada fibra nossa. 

 

... E afinal fica tanto por dizer!

... Como neste lugar.

(Fleuma)

 

A mente é avessa á razão pura e dura. 

 

Este foi o meu primeiro pensamento quando me sentei  na rija cadeira da sala de espera do Barcelona-EL Prat. Talvez pelo extremo cansaço de várias horas de voo e porque esta escala me estava a irritar e a atrasar. Talvez porque quando me sinto irritado e cansado os meus sentidos de observação se apuram e me levam a cismas de proporções  homéricas. Tento evitar. Também se trata de tentar relativizar. 

 

Não consigo.

 

Mesmo em frente a mim, na fila de cadeiras da sala em que me acabara de sentar, estava sentado um casal. Imensos e obesos. Duas pequenas montanhas de uma absurda concordância já que, unidos como se sentavam, pareciam uma reverência total. Juntos e imensos. Mantive os óculos escuros no topo do nariz até porque pretendia dormir um pouco. Pretendia ...

 

Não me importa que caminhos percorreram estas pessoas para chegar a um peso tão colossal. A senhora deveria pesar 150 quilos, mal tocava com os pés no chão. Agitava-os pequeninos enquanto arfava copiosamente, enquanto penteava o cabelo vermelho com umas pontas azuis. O homem, talvez nos seus 140 quilos, soava copiosamente. A pele do rosto enorme e redondo brilhava e grossas bagas de transpiração a evaporar surgiam no seu crânio despido de cabelo

 

Não me aborrece que a sua condição, consentida e até nutrida, seja uma afirmação feroz de puro suicídio. Que os ponteiros do relógio se apressem a correr para uma muito breve morte piedosa. Mas não consegui deixar de pensar nesta ideia de aversão entre a mente e a razão. Na incapacidade de parar. Nos pequenos movimentos que se tornam impossíveis. Na respiração aflita e em assobios. Não consegui deixar de sentir algum remorso pelo nojo que, embora breve, rastejou pela minha mente cansada.

 

Ambos comiam. Não, comer é um ato demasiado comum. Devoravam hambúrgers que se tornavam ridiculamente diminutas entre as imensas mãos do casal. O homem devorou quatro pedaços de pão doce e carne inteiros. Assim, sem sequer morder! Retirava-os do saco de papel gorduroso e nas pausas, ia enfiando mãos cheias de batata frita na bocarra. Genuinamente resfolgava em êxtase num "hum, hum..." que aos meus ouvidos soou sinistro e premonitório. Senti uma intensa vontade de lhe enfiar uma das minhas botas na boca e terminar com aquele ruído. A senhora, mais contida, não ficava nas covas em relação ao apetite. Comeu mais uma hambúrger. Uma mais do que a outra criatura. O espaço que ocupavam e a imagem que atiravam despertou muitas atenções e aguçou ainda mais a minha atenção.

 

" Vão parar agora, chega! Até porque a cola de litro também já se foi" , pensava. E tudo assim afirmava. O arroto sonoro da senhora era evidência de saciedade.

 

Mas não. Não.

 

O enormes e  sapudos braços de  criatura feminina mergulham num imenso saco de pano azul. Esta é uma verdade que me assombra as noites - sorriu enquanto retirava do saco azul outro pedaço de papel castanho.

 

" A sobremesa? ...", só consegui articular estas palavras entre dentes, porque, abrindo o saco, a senhora foi retirando pedaços de tarte de maçã e canela: enquanto dividia com o homem ao seu lado, braço obeso com braço disforme, procedia a encher a cavidade bocal com os doces. Um a um. Inteiros e sem praticamente mastigar. Tudo de maneira maquinal e fruto de anos de habituação. Cada um engoliu três pedaços de açúcar puro. E ambos, em uníssono, chuparam as pontas gordas e oleosas dos dedos. Em deleite.

 

O homem, criatura possivelmente mítica de um qualquer recinto maldito, colocou a mão direita sobre o peito enorme e disforme. Desenhou um esgar na face alienígena e queixou-se numa voz fina onde a testosterona há muito se diluiu em gordura. Parecia estar enfartado. E imbecilmente indignado com tal.

 

Por fim, ambos agarraram nos respetivos sacos de papel castanho e rançoso e amassando-os, limparam as bocas. Começando pelos cantos das beiças e terminando no centro. Os dois pedaços de papel, feitos bolas de sebo, foram despejados em cima do banco ao lado.

 

Para retomarem o seu voo, sentaram-se em cadeiras de rodas com motores.

 

Para se deslocarem em direção à porta de embarque. Mutantes.

 






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