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Uma triste conclusão que todos os dias se revela na minha vida é que me sinto mais vivo no mar do que em terra. Não me iludo, claro. Viajar por terra e pousar os pés pela primeira vez em solos desconhecidos, respirar o ar e tentar absorver o que me rodeia é algo absolutamente primordial e onde assento muitos dos meus sonhos. Porém, nadar abaixo da superfície é um catalisador de existência que me consome todos os dias. E quando não consigo nadar, contactar com a água, torna-se punitivo e desgastante. Porque nada se pode comparar à viagem interna que me percorre quando deslizo debaixo da água. Nadar no meio do gelo grosso e denso, onde por vezes a luz apenas entra de forma tímida e a escuridão se torna tão intensamente senhora que mais não se pode fazer do que deixar que nos abrace. Porque já me disseram, sei que os meus olhos se tornam imensos pelo assombro e são muitas as vezes que deixo outros em aflição porque deixam de me ver ou ouvir no meio do gelo escuro. Sei que se torna difícil entender, sei que sim. Mas para mim, bem cá dentro, consigo sentir-me vivo e como fácil será se um dia quiser deixar-me levar por uma verdadeira mãe. Uma euforia desmedida e a sensação de pertença tão pulsante deixa-me quase indefeso. Mesmo sabendo que aquela escuridão e aquele gelo poderiam ser o meu mundo. Poderiam. E quando subo à superficie, enquanto os outros riem e se alegram eu executo um mecanismo que durante anos desenvolvi: controlo os tremores que me percorrem o corpo de cima a baixo. Cerro os dentes e só quem muito bem me conhece é que consegue observar a minha luta para não tremer convulsivamente. Só não consigo controlar o olhar, que se desloca de lado para outro e a face que estremece de forma quase imperceptível. Porque me sinto orfão e tivesse sido afastado à força de onde pertenço.







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