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Não saber porque passa o tempo é uma das mais desconfortáveis piadas da nossa existência. Deixar que esse mesmo tempo decorra, esvaindo-se entre banalidades, comodamente arrumadas como vivências úteis, necessárias, é mais do que uma piada: é um engano arbitrariamente crasso. 

É assustadora a incapacidade que permite que se esgotem os meses com a displicência do envelhecimento de quem percorreu uma vida inteira sem um arquejar, um ténue, que seja, vislumbrar de algo verdadeiramente excepcional, e mesmo assim conceba o paradoxo da ilusão de que algo realmente genuíno conseguiu para si. Será sempre um eterno desconforto para mim, se conseguir chegar aos anos de velhice mais profunda, concluir que o tempo se foi esgotando numa miserável epopeia de vida - uma vida inteira sem atingir qualquer altitude que me permita morrer sem quaisquer remorsos.

Creio que é exactamente disso que se trata: resistir aos dias de absurda negligência em nome de outras "causas mais nobres"; chegar ao fim dos anos com a  satisfação de algo pessoal atingido,  rebatendo todos os que, e eu observo isso todos os dias,  começam a observar o entardecer da vida amargamente cientes da mediocridade dos seus anos.

Eu recuso-me a essa entrega. Insisto naquele maquinar que persegue sonhos e viagens. Viajo tanto! Tentando absorver tudo e não deixar nada por fazer. Mesmo sabendo que muitos se reconheceriam infelizes junto a mim.

Mas para mim, mesmo quando quebro exausto, é não sentir um pingo de hesitação que me deixa realmente completo. 

Quero, um dia, chegar ao meu entardecer e não lamentar secreta e amarguradamente ter sobrevoado os anos sem trazer nada comigo quando chega a hora de pousar. Poder contemplar o passado sem o ódio rancoroso de quem falhou por completo.

Principalmente: sentir o que outros nunca sentiram; não carregar aos meus ombros o fardo da frustração e da resignação por uma existência mal vivida - sabendo que esta resignação é um inferno muito pessoal de imensas criaturas.

 

 







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