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Lembras-te, nas raras vezes em que a minha ousadia se atreveu a romper o silêncio? Quando tudo o que escrevia eram sombras, escuridão e abismos, tu, quase branda, nesse teu acreditar num mundo melhor, aceitavas os meus trejeitos lúgubres, talvez porque, no fundo, me achavas estranho e perdido em algo, e incapaz de me submeter a essa racionalidade que insistes ser a tua maior força.

É estranho, para mim, agora, provar o ácido do teu pessimismo, sentir-te entre as tuas sombras e medos. É estranho porque te desconheço forças para caminhares orgulhosa nestes dias onde a Ordem é o Caos organizado. Mais estranho, porque nada sei das tuas lâminas de sobrevivência, mas pressinto o teu espanto perante um mundo feito de horrores sombrios, buracos sem sol e bestas cegas.

Poderia romper o silêncio porque sei que sempre tive razão. 

Mas não. Não é isso que eu quero.

Também não quero testemunhar-te incrédula. Muito menos escutar a tristeza a escorrer pelas agruras da tua dúvida, enquanto se vão esmagando os tronos dourados da paz e da consciência.

Para isso estou cá eu. Sobrevivente da explosão. Pregador da Queda. Incapaz de confiar no mundo.

Não.

De ti, quero o pequeno, longínquo e frágil raio de luz, que vampirizo para caminhar entre sombras. Quero que sejas diferente, mesmo que sintas ser uma idiotice plena a confiança nos outros; mesmo perante a evidência da minha razão e cinismo, quero que me arrastes por outros labirintos. Quero a tua companhia e que sintas o sabor da textura das minhas escarpas, da persistência da tua preocupação contra a minha lógica. 

Ofereço-te um catecismo de um perdão que me esqueci. Perdido. Um poema amargo sobre as cinzas deste mundo. Um fim sem fanfarra.

Oferece-me a tua esperança. Mesmo que seja uma bofetada no meu rosto orgulhoso. Um fragmento a cintilar junto ao abismo.

É isso. 

Um rasgo apenas. Uma fenda. Uma saída. Mesmo que tenha o sabor da ilusão e do sonho.

 

 

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