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“Uma pessoa não é iluminada por imaginar figuras de luz, mas por estar ciente da escuridão.” -Carl Jung

 

Morfeu acompanha os meus dias há anos. Desde aquele momento distante em que descia a calçada da Graça debaixo de chuva intensa, solitário e creio que próximo do desespero absoluto; talvez porque as estrelas estivessem alinhadas - já me disseram ao ouvido -, ao ver aquela silhueta negra encharcada e encolhida de frio, quase dissolvida entre a parede suja e o enorme caixote de lixo, perante a mais absoluta indiferença dos carros que que passavam e outras pessoas demasiado apressadas, eu tenha conseguido respirar um outro desespero. Algo que imaginava ser impossível.

Recordo-me claramente de atravessar a estrada a correr; lembro-me da silhueta encharcada se tornar ainda mais pequena, como que antecipando um golpe de dor, do seu gemido enquanto a agarrava entre os dedos de uma mão e a colocava cuidadosamente dentro do bolso aquecido do meu casaco.

Existe um preencher de vazio portentoso na mera decisão de esquecer o nosso próprio desespero pessoal, quando entramos em casa como desajeitados palhaços, enquanto tentamos retirar os tremores do corpo felino com a água morna na banheira - como se algo demasiado importante para nós fosse acontecer. Não na caridade do gesto. Não na piedade que me varreu cruelmente. 

Não. Foi algo que apenas descobri com a passagem dos anos.

Morfeu, porque ao dormir junto a mim em momentos de navegação pelo meio de destroços, consegui fechar os olhos e sonhar. 

Essencial. Vital.

Morfeu "ensinou-me" o fascínio pela escuridão. Por todos os minutos eternos em que caia na cama exausto, incapaz de encontrar força para me suster, ele deitava-se ao meu lado e eu conseguia ver, claramente, o brilho verde dos seus olhos no escuro. O passear exímio por cima do meu peito quando eu nada conseguia ver.

Existe uma beleza fundamental na mais extrema escuridão. No preceito imutável e intransponível da ideia  que quando a luz terminar esta escuridão permanecerá. Estranho mas reconfortante. Como se fosse um estranho sortilégio revelado por um gato negro que, arrogantemente, eu pensei estar salvar.

Acabamos por aceitar a nossa natureza de sombras sem medos, tentado imitar um pequeno Deus na sua amizade com a  escuridão. Pela sua mera presença reconfortamos as nossas falhas e  fragilidades físicas.

Morfeu é um companheiro singular. Sempre comigo mas não sou o seu amo. Genuinamente e humildemente me assombra porque cuida de mim, pressentindo quando algo se carrega demasiadamente de negro.

Morfeu foi o meu porto em todas as cartas que nunca escrevi enquanto vagueava entre as minhas sombras. Aqueles primeiros raios de conhecimento solitário e longe das pessoas. A constatação visceral, inequívoca, do meu amor incondicional a sombras e escuridão como caminho que decidi escolher, tentando pateticamente caminhar sem tropeçar. 

Ansiando vestir a pele do pequeno Deus negro.

Talvez eu esteja errado. Talvez.

Mas porque amo esta escuridão pessoal eu nado entre estrelas. 

Assim sei que morrei em paz.

Chega-me.


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